terça-feira, 4 de junho de 2013

Azar

Ilustração: "O velho homem triste", Van Gogh


 Definhou. Como as flores nos vasos que antes a mulher esparramava pela casa. Enrugou, curvou, trocou o perfume de frescor pelo cheiro impregnado da velhice. Não que estivesse sentindo o peso da idade. Vergava ao peso dos tropeços e tombos com que a vida o confrontara, obrigando-o ao ceder e ao recuar constantes. Da crença, que sempre fora escassa, desfez-se com rancor. Droga de fé sem sentido que o forçara a confiar nas pessoas, no destino, na sorte.
Sentado agora, e todos os dias, no sofá da sala, cochilava pesadelos entremeados por telejornais e novelas. E tentava lembrar quando o vigor do corpo o havia abandonado. O da alma ainda estava em processo de ruína — gradual e pérfido.
Seu calvário começara com a aposentadoria. E com a mudança do Rio de Janeiro para  Brasília, para onde a mulher fora transferida ex-officio um ano antes de ele se aposentarTinha trabalhado muito. Uma vida. Sonhando com o dinheiro que receberia. E recebeu. Mas escolheu apostar nas ações para aplicar o capital de toda uma vida. Perdeu. Tudo, tudo. Azar mesmo. Desses nos quais só acredita quem tem. Salvou da desgraça um fusca zero quilômetro. E passou a viver da aposentadoria minguada. Ano após ano.
A esposa, menos crédula, tão logo havia chegado ao Planalto Central, financiara o apartamento em que moravam agora. O rendimento das ações pagaria adiantado pelo imóvel, pelo sossego da velhice. Não pagou. E a dívida prosseguiu por anos sem fim, montada nos ombros da esposa. Humilhação. Sentiu-se menos homem. Adoeceu. Primeiro, de tristeza; depois, de acabrunhamento; e, finalmente, da certeza de que não conseguira construir nada. Mas ainda tinha um carro. O terceiro da sua vida. Branco, com frisos de metal, tapetinhos extras. Uma lindeza. Melhor que os outros dois antes dele.  Verdade que fora comprado com a ajuda do dinheiro da mulher. Como o segundo também fora. Mas uma lindeza. Roubado de madrugada e encontrado dias depois todo queimado, sem motor. Azar, de novo.
Foi a essa altura que tomou para si o sofá da sala. 
Pela manhã, banho gelado, hábito de menino. Café pela metade, para não aumentar o peso e complicar o reumatismo. Ou o coração. E, então, a posse do sofá, por volta de 10 da manhã. Só saía da sala de madrugada, à exceção de duas ou três idas ao banheiro, mancando por causa dos esporões na sola do pé. Almoço, lanche. Tudo lá. Em frente à televisão ligada o tempo todo.
Ficou estranho. Parou de conversar e de cantarolar, duas coisas que gostava de fazer. Pensava no carrinho branco comprado pela esposa e chorava. Olhava as paredes do apartamento comprado pela esposa e chorava. Olhar perdido, de velho, de saudade, de adeus em doses.
Definhou manhãs e noites. Em silêncio de dor. Morreu em Brasília, na UTI de um hospital de convênio. Longe da mulher. Longe do sofá. E nem voltou para ser enterrado onde queria, no Rio de Janeiro. Azar. Como sempre. 

11 comentários:

  1. Bom dia ... Boa tarde ... Boa noite
    Bonito blogue onde a harmonia das palavras se enlaça em frases perfeitas. Texto lindíssimo. Gostei de ver e ler. Parabéns.

    Gostava que visitassem e, querendo, se fizessem seguidos/as. Fica o meu agradecimento. Obrigado.

    http://pensamentosedevaneiosdoaguialivre.blogspot.pt/

    http://coisasdeumavida172.blogspot.pt/

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  2. Ai, Cinthia, estou achando que toda essa tristeza de ultimamente está atraindo mais tristezas...

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  3. Oi Cinthia!
    Acompanhei seu trabalho no Concurso de Minicontos da Penalux (eu participei da primeira etapa mas não fui selecionada), li um pouco sobre sua história, e enfim, cá estou seguindo seu blog porque acredito que tenho muito a aprender por aqui. Estou iniciando meus passos como escritora, embora como você, use das palavras escritas para me expressar desde adolescente.
    Te convido a conhecer meu blog, ainda em formação.
    http://www.aledossenaescritora.blogspot.com/
    Parabéns novamente pelo talento!
    Abraços!!

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  4. Olá Cinthia. Vim conhecer, gostei e já sigo seu blog rsrsrs. Muito bonito o q vc escreve.Parabéns...Bjimmm
    http://myblogpinturaarte.blogspot.com.br/

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  5. parabéns pelo belo blog e pelos belos textos


    escrevo alguns versos e se se quiseres conhecer o meu espaço http://www.joselito-expressoesdaalma.blogspot.com.br/, serás bem vinda

    um forte abraço

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  6. Boa tarde, Cinthia. Gostei muito da sua crônica, do seu espaço, de como a conduziu.
    Realmente, muito azar para uma pessoa só, não tem alma que suporte tantas adversidades, definha emocionalmente.
    Parabéns e fique na paz!
    Beijos na alma!

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  7. CONVITE
    Passei por aqui lendo, e, em visita ao seu blog.
    Eu também tenho um, só que muito simples.
    Estou lhe convidando a visitar-me, e, se possível seguirmos juntos por eles, e, com eles. Sempre gostei de escrever, expor as minhas idéias e compartilhar com as pessoas, independente da classe Social, do Credo Religioso, da Opção Sexual, ou, da Etnia.
    Para mim, o que vai interessar é o nosso intercâmbio de idéias, e, de pensamentos.
    Estou lá, no meu Espaço Simplório, esperando por você.
    E, eu, já estou Seguindo o seu blog.
    Força, Paz, Amizade e Alegria
    Para você, um abraço do Brasil.
    www.josemariacosta.com

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  8. Estou alegre por encontrar blogs como o seu, ao ler algumas coisas,
    reparei que tem aqui um bom blog, feito com carinho,
    Posso dizer que gostei do que li e desde já quero dar-lhe os parabéns,
    decerto que virei aqui mais vezes.
    Sou António Batalha.
    Que lhe deseja muitas felicidade e saúde em toda a sua casa.
    PS.Se desejar visite O Peregrino E Servo, e se o desejar
    siga, mas só se gostar, eu vou retribuir seguindo também o seu.

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  9. Olá Cinthia, passei pelo seu espaço e gostei. Parabéns você domina a arte da escrita. Um abraço.

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