quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Filho

Bebeu três ou quatro goles de água. Como se quisesse hidratar a coragem. Não tinha o que dizer. Não encontrava o que pudesse dizer ao filho. Tinha ensaiado umas poucas, curtas frases. Mas não lembrava, agora, onde havia guardado as palavras. Quis recompor a memória entre um passo e outro. Passos lentos no corredor comprido. Voltou nos anos. Pegou novamente nos braços o corpinho pequeno do filho. Sentiu o cheiro bom daquela pele macia. E descobriu onde Deus tinha deixado os seus melhores anjos. As mãos de bebê incrivelmente fortes. Agarrando o dedo dele numa confirmação de posse. Noites de sono no sofá da sala. O menino no colo; ele, nas nuvens de um céu a dois. Cantando coisas idiotas que falavam de bois e de cucas. Olhos nos olhos. Pra ver quem piscava primeiro. Pestanas com pestanas, pra fazer cócegas, dar gargalhadas. Futebol com bola colorida. Bichos de pelúcia transmudados em monstros, dragões, cavaleiros. Robôs e carros de metal. Movidos à pilha, bateria e dinheiro. O dele, sempre esticado em milagre. Coisa de pai. Pai de zoológico, de piscina, de corte de cabelo no barbeiro. Coisa de homem. Dever de casa complicado — no tempo dele era mais fácil. Viagens de verão. Uma vez para conhecer o mar. Muitas outras, acampados no quintal, domando feras, caçando quimeras, cruzando o oceano das poças. O primeiro cabelo no pênis. Mostrado com vergonha no chuveiro. As primeiras perguntas difíceis. Feitas a ele, não aos amigos. Orgulho de ser pai e confidente. Um gole de cerveja escondido da mãe, só um. Pra aprender em casa o gosto da rua. Faculdade de Engenharia. Como ele. No primeiro vestibular. Formatura com direito a viagem. Pra Nova Iorque, junto com a turma. Bolso esticado mais uma vez em milagre de pai. Dívida grande. Grandes expectativas. A ligação importante, chamando para o emprego dos sonhos — o primeiro sempre é. A ligação do hospital. Chamando para o pesadelo.  
A água do copo acabou. Entrou no quarto sem frase na boca ou na memória. Olhos nos olhos. Nenhum dos dois piscou. Pegou nos braços o corpo semi-imóvel, semivivo do filho. Delicadamente. Sentiu o cheiro podre do acidente. Descobriu o que Deus fazia com seus melhores anjos. A mão incrivelmente fraca encostou no dedo dele. Esticou uma coragem do bolso da alma. E cantou cantigas de bois e de cucas. Até que seu menino foi brincar de infinito.


Um comentário:

  1. Ai, Cinthia, a vida é tão triste, você me fez chorar...
    Mas, como você escreve BEM!

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