quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Mais

Mais. Esse sempre foi o maior problema da sua vida. Mais abandono, mais tristeza, mais revolta. Tudo feito de exagero e atrevimento. Comia, chorava, sofria a mais. E amou demais, com um desses afetos que não se sabe se arrancam a alma ou se pisam a existência. Foi tomado de um amor carnívoro, urgente em consumir, apressado em seguir adiante, em direção a mais corpos, 
mais sexo, mais despedidas, mais silêncios.
Tornou-se, assim, homem desconfiado, complexado, tímido. Muito além do que deveria ser um homem razoavelmente feliz. E incapaz de ser ou de ter em metades, em poucos, perseguiu os excessos até a imensidão do nada.
Em um tempo já de muitos nadas, descobriu a bebida. A companheira que o fez mais alegre, mais falante, mais próximo daqueles que se juntavam a ele em seu abismo fundo e escarpado de carências plurais. Marcaram encontros semanais, depois diários, até que se decidiram, finalmente, por um mesmo teto.
Deixou de ser visto nas ruas. E nos botecos. Ou sentado na sarjeta com a cabeça entre as mãos, barba por fazer, unhas sujas. As garrafas, em cores várias de ilusão, desapareceram da lixeira grande que fica em frente a casa. Recolheram-se com ele ao chão imundo do quarto que fede a desistência.
Ele está lá. Ainda está. Dentro da casa branca de paredes descascadas. No quarto de chão fedido. Dizem que insiste com a morte para que venha mais cedo, mais rápida, mais ávida. Para convidá-lá, abre mais uma garrafa. E brinda. Muitas vezes.
Mais. Esse sempre foi o maior problema da sua vida.


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