quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Opinião




Discutiram desde os primeiros encontros. Porque ele gostava de cães e ela amava gatos. Porque o melhor dia da semana era sexta-feira, mas não para ele, que preferia o sábado. Assistir ao jogo ouvindo rádio, coisa de maluco, debochava ela. Ou não, rebatia ele. Lavar os cabelos todos os dias; ou em dias alternados. Tomar chope com ou sem colarinho. Ser protestante; ser católico, espírita, budista, ateu.
Com os anos, casaram-se. Igreja ou cartório. Poucos ou muitos convidados. Pela manhã, no inverno; à noite, na primavera. Não tiveram filhos. Ninguém queria. Mas discutiram até sobre os porquês. Ela, porque era mulher de carreira, bem sucedida e sem tempo, Ele, por qualquer motivo diferente do dela. 
Carro branco; moto preta. Macarrão com molho de alcaparras; camarão na moranga. Lispector, a melhor. Hilst, a incomparável. E enquanto ela escutava jazz no home theatre, ele aumentava o volume dos clássicos noheadphone
Discutiram muito sobre sexo, o deles, o dos outros, o dos anjos. E sobre a cor do mar, azul, verde, acinzentado. Sobre verduras, estrelas, rodapés, sentimentos, fantasmas, sogras, drogas, duendes, países, escovas de dentes. Cada um — com sua couve ou agrião, com hipernovas ou anãs, com sua Áustria ou Dinamarca —, seguiu em frente. Prontos, sempre, para a próxima rodada de opiniões.
Quando ela ficou doente, discutiram sobre o diagnóstico, antes e depois de o médico dizer que era grave. Tratamento tradicional ou alternativo; em casa ou no hospital; com ou sem cirurgia. Ela pediu para morrer, ele disse que não. Ela morreu assim mesmo. 
Ele foi para casa. Fechou as cortinas, arrumou, lavou, recolheu o lixo. Recolheu também, em algumas malas, tudo o que era dela. Depois, carregou consigo para o quarto o porta-retratos prateado e o colocou no travesseiro ao seu lado. Antes de dormir, disse para a foto dela: "Você diz que morreu. Mas amanhã nós vamos discutir sobre isso, viu?".


Um comentário:

  1. Arre! É melhor ficar "sozinha (o)"...
    Mas esse seu final me lembrou uma excelente palestra, que até compartilhei e que fala da nossa mente, que não nos dá trégua e está sempre com algum pensamento. Até quando resolvemos dar um basta e optamos pelo silêncio, ela retruca: está bem, você não quer falar, "let´s talk about that"...

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