segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Quebra-quebra


Quebrar. Do verbo despedaçar, destruir, fragmentar. Aurélio, Houaiss, obrigada. Quebrar. Do verbo se espatifar em erros, se estilhaçar em dores, se destroçar em consequências.
Quebrar as unhas. De tanto cravá-las na pele para convocar a vida que está lá, subcutânea. Quebrar o mito da boa menina. E também o da menina boa. Essas falácias de anjo e demônio, do bem e do mal, do yin e do yang que a gente consome no leite materno e se vicia nelas para o resto da vida. Falácia... Adoro essa palavra. Sempre quis usar em algum texto. Pronto, está aí. E nem me importo de ser chamada de velha pelos vigilantes-do-contemporâneo de plantão. 
Quebrar a tradição de família que sussurra nos ouvidos das crianças que chorar só pode no banheiro e na fronha. E depois? Quando crescem e começam a engolir aquela água salgada toda, qual é o conselho, hein, tias, mães, avós? Tem gente de família com um mar de choro por dentro. Homens, mulheres. Cultivando tsunamis que se alternam com águas paradas. Paradas demais. Eles nunca aprenderam a explodir em pororocas.
Quebrar a perna. Que no teatro dá sorte, mas que na vida é só tropeço. E muletas. Drama! E ao fim de cada ato, limpo no pano de prato as mãos sujas do sangue das canções... Betânia para quebrar o gelo. Ou não quebrar. E usar os cubos no copo de whisky (escreve uísque você, que o meu é scotch). E tomar vários, intensos e desastrosos porres, deixando no congelador dois ou três cubinhos para a compressa de pano que vai aliviar mais tarde as têmporas latejantes da ressaca.
Quebrar o pau com o mundo inteiro, quando a vida estiver enchendo o saco. Sem o menor remorso. Porque quando a vida incomoda, a gente vira uma coisa meio Black Bloc, que quebra tudo e de cara tampada. É só não esperar que alguém entenda, que se solidarize. Porque ninguém leva em conta se antes de apanhar a gente era legal. Se antes a gente quebrava lanças e promessas pelos amigos, pelos filhos, pelos amores.
Quebrar o sigilo de coisas passadas, camufladas, mal contadas. E em troca de sexo apressado, de emprego vagabundo, de promoção pequena, de elogio barato, de popularidade de boteco quebrar a confiança de quem entregou para a gente os seus segredos mais caros. E entregou por afeto, por descuido, por bebedeira.
Quebrar o jejum. Abocanhar sem vergonha o prato cheio. Sexo com fios de ovos. Amor em nuvens de algodão-doce. Paixão ao leite condensado. Chope com os amigos nos dias de verdade. Champanha com os amantes nos dias de brincadeira.
Quebrar a rotina. Quebrar, quebrar, quebrar. Tudo.


3 comentários:

  1. Anônimo2/9/13 07:51

    "... quero ver quebrar, quebra lá que eu quebro cá, quero ver quebrar". por David Miranda

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  2. Gostei, claro, muito do seu texto. Só não gostei desse quebra-quebra, desculpe. Não gosto disse nem em filme... Violência gera violência. Deixe o Obama atacar a Síria pra ver o que acontece... Quanto ao choro, olhe que lindo o que Mia Couto escreveu: "O pranto é o consumar de duas viagens: da lágrima para a luz e do homem para uma maior humanidade. Afinal, a pessoa não vem à luz logo em pranto? O choro não é nossa primeira voz? A solução do mundo é termos mais do nosso ser. E a lágrima nos lembra: nós, mais que tudo, não somos água?"

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  3. este seu texto é inteiramente fantástico. todas as frases imperdíveis. se pinçar alguma, farei injustiça com outras. esse "quebrar" tudo é renascer inteiro, não é violência, é quebrar a casca do ovo para se ganhar a vida (numa comparação pobre), a vida que se merece viver de frente, como nosso Criador, imagino eu, deve ter planejado. é quebrar a hipocrisia, a falsidade. Parabéns, Cinhia, parabéns. o resto é falácia (também amo essa palavra).

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