sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Quando se vai

escuta este grito
(é meu)
grito de besta impotente
que ainda faz sangue
vivo embaixo das crostas
é meu este flagelo que mil
porres não aplacam
e o sofrimento-capataz
que se entranha nas vísceras 
—  e comanda a casa

escuta meu berro, meu urro
que não sou surdina ou elegância 
imbecil 
eu bato o portão 
{fazendo muito alarde !
porque sou rangido, atrito
nesta dor  de corte 
porque não há silêncio 
no que mutila a alma

partir é sempre mais 
que se afastar das grades
: é cedo, é desterro
inferno com deus
céu do diabo
dia sem som, sem tom
straight flush incompleto em noite
de mão de mando
vontade de esconder embaixo
do lençol a vida
amarfanhada
o gesto, o afeto, o ar
que falta
mas nada disso adianta
          [o grito, o berro, o urro, as grades]
que quando se vai
já se foi

3 comentários:

  1. Bem dolorido e profundo. As vezes queremos deixar o que nos faz mal por debaixo dos panos, mas se esconder ou fugir, não adianta.

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  2. Você escrevendo essas crônicas maravilhosas e Alice Munro ganhando o Prêmio Nobel... Se não me fiz entender, li um conto dela que deixou muito a desejar.

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