quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Vai tricô e vem meia

Paula Cristina aprendeu tricô para se acalmar. Não aguentava mais tanta ansiedade com tudo. Um pacote sumia no correio, a fila da padaria não andava, a empregada faltava, o marido atrasava para o cinema e lá estava ela, comendo o canto da boca, batendo a ponta do pé no chão“Você vai ver, é tiro e queda”, insistiram a mãe e aamigas. “Acalma que é uma beleza. Mas não era fácil. O ponto dela, muito apertadoarrebentava a lãE quando ela errava, não tinha volta; ninguém desfazia a força daqueles pontos estrangulados. Ganhou o apelido de Mão de Ferro. E, junto com o apelido, uma montanha de conselhos de como deveria tricotar.
Sentada em uma poltrona da sala, aproveitando o sol da manhã, pegou o trabalho de tricô guardado no saco de aniagem alvejado, onde se lia, em letra bordada, “Trabalhos Manuais”. Junto com o novelo de lã e as agulhas, a revista com instruções, de onde saltou o papel com a letra da mãe: Manter a mão firme, mas não forte. Enfiar com suavidade a agulha na lã. Usar o dedo para enrolar a lã na pontinha da agulha. Puxar a agulha de modo a que a lã passe pelo meio da laçada, formando um novo ponto. Não apertar demais. Fazer a mesma coisa com o ponto meia... Opa! Ponto o quê? Que diabos... Então, não é tudo a mesma coisa? Agoniada, ligou para a mãe. Passados o oi, querida e o que saudade (como se não tivessem se falado na véspera), perguntou de supetão:
— O que é ponto meia?
As explicações do outro lado da linha a irritaram tanto quanto o tom debochado da mãe. Como assim, enfiar ao contrário e fazer a mesma coisa por trás? Papo esquisito. Mas não, não podia ser. A mãe sempre se dera ao respeito, não ia maliciar assim, ainda mais com ela. Desligou. Não tinha entendido nada, mas não era mulher de desistir. Muito menos mulher de contar à mãe que não tinha entendido nada. Decidiu fazer o que sempre fizera na vida, desde cedo: aprender sozinha.
Aos 15 anos, começara a fumar. Mas depois de passar um ano baforando escondida no quartono banheiro do colégio e em outros lugares escondidosalguém lhe dissera: ”Se você não traga, pra que é que fuma?”. Como assim?! Ela tragava, sim! Tragava muito! Não...? Não tragava nadinha? Que droga! E como se faz para tragar? Hãhã... Hãhã... Sei... Chupar o cigarro com força e engolir de uma vez a fumaça. Mas como assim...engolir? Engolir a fumaça não é coisa de maconheiro? Eu não sou da turma da maconha não senhor e não senhora. Ah, entendi! Inalar e exalar na mesma hora.  Que jeito bonito de falar... Mas é uma coisa meio besta, né? Se é pra soprar, pra que chupar,? Como? Ok! O prazer, a sensação no peito e na cabeça... Entendi... Tem certeza de que não vai mesmo fazer o mesmo efeito que um beck, né...Burra? Eu? Que é isso! Apelou, perdeu! Eu só queria ter certeza. Porque eu não curto maconhaBem diferente? Valeu, então. Vou aprender a tragar hoje à noite e não se fala mais nisso. Como é que é? Tosse? Eu não vou tossir coisíssima nenhumaNem pensar!
Passou uma noite inteira aprendendo a tragar. Engasgou, sentiu a água escorrendo dos olhos que ardiam, sufocou, teve ânsia de vômito, mas não tossiu. Bem, pelo menos alto. A cada vez que a vontade vinha, respirava fundo e afundava o rosto no travesseiro. Grunhidos. No máximo.
Mas qual era mesmo o propósito de contar essa longa história sobre fumar... Ah, sim! Para mostrar que Paula Cristina não é mulher de desistir. Não ela.
Desligando as lembrançaspartiu para o computador. GoogleTodas as respostas sempre estavam naquele Google sabido. Digitou na barrinha: “vídeos tricô ponto meia”. Coisa linda. De primeiro mundo mesmo. Na página aberta, links para vários filmetes do YouTube. Clicou no primeiro e voilàLá estavam as mãos da instrutora, mostrando como fazer. Armazenou o vídeo em Favoritos, colocou o notebook na mesinha ao lado da poltrona, pegou as agulhas e o novelo que tinha deixado sobre uma cadeira e apertou o play do vídeoAlgumas vezes. E digamos que algumas é apenas uma expressão. Amena.
Depois de espetar os dedos inúmeras vezes, convenceu-se de que aquele tal de meia era um ponto de merda. Nunca daria conta daquela coisa de “vai tricô e vem meia”. Aborreceu-se. Porque ela não era mulher de desistir. Não ela, que aprendera tudo sozinha, desde cedo.
Como quando perdera a virgindade, aos 20 anos, mais tarde que a maioria das amigas. O namorado insistia que ela precisava transar. Ela não queria. Negou uma, negou duas, negou três, até que, irritadíssimo, ele partiu para o deboche: “Você é virgem! Aos 2anos! Hahahahaha!”Ela era. Mas isso era segredo de Estado. O sangue ferveu. Transbordou, escorreu, tomou conta do cérebro dela como um vulcão frenético. Por dentro. Por fora, Paula Cristina sorriu e devolveu a afronta: “Que nada, meu bem. É você que não me dá tesão”. Ofensa, briga, discussão e um desafio: “Se você não é mais virgem, então prova!”. Provou. Dias depois, encheu a cara na boate e chamou no canto do bar o carinha lindo-e-folgado-pra-quem-todas-as-amigas-da-faculdade-queriam-dar.“Ou você me ensina a transar ou eu não faço mais nenhum dos seus trabalhos de faculdade”. Ele riu. E ela não teve certeza de quem, entre eles dois, era o mais idiota. Sumiu do namorado. Hoje, não; febre, cólica, diarreia, bactéria, dor de ouvido, caxumba, amigdalite e vamos dar um tempo na relação. Apareceu para o carinha lindo. Camisinha, pílula, dor, sangramento, cala a boca e continua...Assim, assim, desse jeito... Aí também?... Normal?... Humhum... Não para, não para.. Ai meu Deus! Um mês. Inteirinho. Trinta dias de dor, perplexidade e glória.
Fim de semana, roupa nova, linda, sexy. Hora de acertar as coisas com o namorado no estaleiro. Oi, meu bem, quanto tempo. Quero te ver. Que saudade. Eu, transar? Não sei... Virgem? Tá doido? Está bem, vamos ver o que rola. Rolou. Sexo morno, sem graça. Pouca variação, pouca imaginação, criatividade nem pensar. Terminou tudo com o namorado morno. E ficou sozinha por um tempo. Cheia de prática, sabedoria e tesão.
Sim. Esta história (ainda) é sobre o tricô de Paula Cristina. Ou deveria ser. Mas cara, dá um tempo! Who cares? Que falta de sensibilidade! Que culpa ela tem se não é mulher de desistir? Se ela gosta, desde cedo, de aprender tudo sozinha? Ou por acaso alguém pensa que tragar e transar são coisas mais fáceis de aprender que um tricozinho de nada? Calma gente!
Paula Cristina afastou as agulhas de si e suspendeu diante dos olhos o trabalho colorido que tinha sido imaginado para virar um suéter. Lã bonita. Cores bonitas. Combinavam com o tom de pele do marido. O que não combinava era aquele ponto meia de merda. E a noite que já tinha caído lá fora, sem ela perceber. E ela não gostava de tricotar à noite.
Então, teve uma ideia. Que ela não era mulher de... Ah, isso já ficou cansativo! Vamos aos fatos. E chega de encher linguiça!
Primeiro, pesquisou no Google. E teve a certeza de que era um gênio. Buscou no quarto a filmadora do filho, ajeitou os cabelos, passou uma camada farta de Ruby Woo nos lábios carnudos, checou as unhas para ver se o esmalte, também vermelho, estava intacto, pigarreou de leve para ajustar a voz, pegou novamente o tricô sobre a cadeira e deu início a uma gravação. Algum tempo depois, postava no YouTube o vídeo que, soube mais tarde, se tornou viral: Ponto tricô e ponto meia — Tudo o que você não deve fazer.
Feliz com o resultado, correu para o andar de cima. Banho de banheira relaxante. Lingerie provocante. Aquela noite, faria o carinha lindo-e-folgado-pra-quem-todas-as-amigas-da-faculdade-queriam-dar se lembrar de cada minuto de um certo mês inteirinho. Daqueles trinta dias de dor, perplexidade e glória. Ia ser uma noite de vai tricô e vem meia. E que mão de ferro que nada! 
Mas, antes de transar, Paula Cristina queria mostrar ao marido como tinha aprendido a tragar...


2 comentários:

  1. Dor? Lógico que não! Perplexidade, também não, que já sei de sua competência. Glória, definitivamente.

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