domingo, 8 de dezembro de 2013

Cor de piche, cor de traição

20 minutos, talvez 17, 15 ou menos. É esse o tempo que ele tem para lembrar. Ele, Josewaldo, filho de Josemira e Oswaldo, assim com "w".
Lembrar da primeira trepada, ainda menino, mal cabendo dentro da mulata gorda que lhe enfiava pela boca o peito caído. Da zoeira dos amigos, assim que saiu do quartinho fedorento de porra. Quis entrar na fila outra vez; não tinha mais grana. Próximo. Lembrar da pipa que soltou logo depois, esquecido de que já era homem. E das pingas que estremeciam o corpo e o cérebro, tomadas com os meninos mais velhos no campinho de futebol. Cada uma custando um favor. Mais tarde, moço feito, deu de pagar para as moças a cerveja gelada do boteco do Angolano. Mas ainda sentia prazer era mesmo com a pinga do campinho. Lembrar do tênis fake, comprado com o primeiro dinheiro do tráfico. Jurava que era importado. Levou gozação uma semana. Até que fez serviço maior e comprou um de verdade. Foi um avião de primeira. Nunca roubou nada. Nunca deixou um furo. Chegou logo a tenente, que soldadinho cheirado era coisa só para os burros.
O primeiro berro ganhou do comando. Beto Doido mandou e ele apagou o sujeito. Sem pensar, sem olhar na cara. Tremeu. Muito. Suor pingando na boca, nos olhos, no rego, nas mãos. Quase erra o tiro, por causa da mão molhada. Mas não errou. Bem no meio da nuca. Pontaria de gente grande. Ganhou foi logo o apelido de Na Mosca, coisa fina que lhe rendeu respeito e inveja. E assim que fez o presunto, correu excitado para os braços da mulata gorda. Com ela podia gemer e chorar e foder e brochar e dormir, e ainda ganhar um abraço de verdade. De lá seguiu para o Angolano e tomou quatro pingas. Deu um gole para o santo. Apenas da primeira. Depois, era meia-noite. Hora de colher o sangue do pai filho da puta. Enfiou o berro na boca do depravado do Oswaldo e o obrigou a chupar a morte daquele cano frio e sujo por muito tempo, antes de atirar. Não ia mais fazer aquilo com filho nenhum, o desgraçado; nem com os dele, nem com os de ninguém.
10 minutos, talvez menos. É esse tempo que sobra para Josewaldo lembrar o primeiro tiro que lhe rasgou a carne. Por pouco não pegou na artéria, dissera o doutor. Corpo fechado, disseram todos. Uma semana de cheirada grátis para o doutor. Merecido.
4 minutos para se lembrar dos olhos cor de piche de Lorena, cor de traição. Dos beijos de estudante tímido, das trepadas que viraram amor. Tudo feito nos lençóis de algodão que ele mesmo comprou, cheio de insegurança, e que perfumou com cheiro de almíscar, apesar da gozação dos amigos e dos alertas da mãe, que repetia: que mulher folgada, que mulher estranha, que mulher é essa. Cana, meganha. Infiltrada. Pra fazer ele cair, pra chegar no Beto Doido. Mentira, mentira! Que aqueles gemidos na cama de lençol de almíscar eram de verdade, sim! E ele matava quem dissesse que não. Verdade. Era o que contavam as fotos que o Beto Doido esfregou na cara dele. Ela de uniforme, ela na viatura, ela saindo do quartel, ela beijando um sargento na saída de um motel. Olhos cor de traição. A traição que está subindo o morro, disfarçada pelo barulho do pagode, do funk, das rajadas disparadas de brincadeira pelos soldadinhos cheirados. No comando, o sargento do motel. Ao lado dele, a soldado Lorena.
Não dá tempo de lembrar mais nada. Mas Josewaldo não sabe. Não sabe que só tem 1 minuto. Se soubesse ia se lembrar do mar, da morte da mulata gorda, do prêmio de dança na gafieira, das férias na Bahia, da casa que dera para a mãe, dos homens que tinha matado: dedos-duros, concorrentes, canas. Em segundos, vai se encontrar com eles no inferno. Pelas mãos de Lorena que vai matá-lo com um tiro na cabeça. Olhando para ele, sem piedade, sem suor nas mãos, com os olhos cor de piche. Cor de traição.  
 
 
 

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