quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Na luz da escuridão

Quando Pedro se jogava no chão de terra daquele galpão escuro e sem ruídos, livrava-se do fardo da sua vida empoeirada. Era acostumado ao escuro, já que se levantava muito cedo para o trabalho na lavoura. No campo, só enxergava do dia os pingos redondos e irregulares que insistiam em varar o imenso telhado do seu chapéu de palha. Não tinha tempo para erguer os olhos e, mesmo que tivesse, não via serventia em mirar um céu tão vazio. Nenhuma colheita a ser feita naquele azul sem nuvens. A tal força divina celestial a quem tantos imploravam não se mostrava disponível à doação. Pelo menos não por aquelas bandas. Nem para ele.
A crença dos companheiros pouco lhe importava. A divindade invisível e sem ouvidos a quem todos chamavam de Senhor, e a quem entregavam seus podres fiapos de esperança, parecia-lhe apenas um mágico de truques impiedosos. Para ele, Deus era uma invenção cruel, um jeito de enganar e acomodar os pobres. Mas a ele o tal Senhor não iludia, e por isso mesmo não perdia tempo senão com a hora da boia, no meio da manhã.
Ele tinha sorte. A maioria dos homens da região levava para o campo a marmita minguada que a miséria ora concedia, ora negava. Eram poucos os que conseguiam trabalho que servisse comida, mesmo sabendo que o alimento seria descontado no final da semana de trabalho. Era melhor pagar pela pança cheia que enfraquecer-se com o vazio da fome por causa de uns trocados a mais. Além disso, ficar sob o sol escaldante até as cinco da tarde  não o consumia. A lavoura era o mal menor. A verdadeira desgraça intercalava-se entre o pesado da lida e a fuga noturna para o galpão.
Quando a sirene anunciava o fim da jornada, ele evitava a boleia do caminhão que encurtava o caminho para casa. A pé, ia preparando os sentidos para o sofrimento que sempre lhe fazia as honras quando virava o último cotovelo da estrada. A visão do casebre isolado dava início a um fincar de dentes na boca cascuda. Espremia, macerava mesmo os lábios até que o gosto metálico de sangue molhava a sua boca. Então, de posse do sabor nauseante e sentindo as agulhadas no beiço, entrava pela porta estreita e acanhada de casa ao encontro do inferno. 
Lá, sentado na penumbra, em uma cadeira de pau sem lustro, um homem gordo e grisalho mirava a porta em obsessiva espera. Com a entrada de Pedro, dava continuidade a um ritual de hábitos repulsivos que iniciava horas antes, quando jogava o primeiro copo de aguardente pela goela imunda. 
Sebastião parecia inofensivo. E quem não o conhecesse poderia jurar que naquela sala, na penumbra do cômodo sombrio, o dia findaria sem maiores sobressaltos. Mas não. Ainda haveria muita dor antes que a noite descesse por completo.
Pedro nunca dizia nada. E talvez esse silêncio exacerbasse a sanha daquela besta que recendia a álcool acumulado.
— Que hora é essa? — rosnou o bêbado.
— Num sei. Tenho hora certa não.
— Num tem porque tava na vadiagem, num é desinfeliz? 
— Tava na colheita, pai.
— E por que tão tarde? Os otro já tão em casa, que vi pasano na estrada faz quase hora.
— Eu vim andando.
— Num gosta da boleia, junto dos home?
— Eu prefiro vim de a pé, pai.
— Tu num senta na boleia junto dos home porque tu te acha mió que eles, né não? Tu é cheio de bosta que nem a tua mãe e o povo dela! Até o teu nome é coisa de gente besta: Pedro... Parece mais é peido! Hahahahaha!
As mesmas provocações, todo fim de tarde. O mesmo algoz, a mesma violência, o mesmo medo. Pedro se calava e pedia licença para ir pegar a janta. Sebastião respondia que ele não ia comer nada para aprender a respeitar a sua autoridade. Pedro abaixava a cabeça e saía de perto do homem embriagado. Então, Sebastião se levantava, arrancava da prateleira improvisada um rebenque desgastado e descia no lombo do filho. Golpeava tanto que às vezes cambaleava.  Depois de se saciar na dor do filho, largava-o e prosseguia em sua rotina de abusos. Pedro ouvia, então, entorpecido, o estupro da irmã, Rosarinho.
Antes, quando a menina tinha alguma esperança de que a bestialidade de Sebastião podia ser detida, ela gritava pelo irmão. Gritos estridentes como os de um bicho preso em armadilha. Com o tempo, tornaram-se apenas sons sufocados pela descrença. Pedro se levantou do chão muitas vezes para tentar ajudá-la, mas só fazia era apanhar mais um tanto, e com mais força ainda.
Aos poucos, Rosarinho cessou até os lamentos. Como um adulto calejado, fechava os olhos e estremecia, enquanto o animal a penetrava. Pedro não conseguia deixar de pensar que ela se calava para poupá-lo de uma nova surra, e a sensação de ser protegido por quem deveria proteger acabava por destroçá-lo ainda mais. A sina de Rosarinho era sem volta. 
Ele sentia saudade da mãe. A mulher silenciosa e meiga sucumbira havia anos aos maus-tratos do marido. A única tia que conheceram, irmã da mãe, morava na capital e só tinha aparecido por ali umas três ou quatro vezes, até que Sebastião a encurralara na cozinha, bêbado, tentando estuprá-la. Nunca mais. E Pedro se dera conta de que não restava mais ninguém por eles. No começo fora mais difícil, porque ele ainda cismava que podia ser feliz. Mas logo percebeu que a esperança doía mais que as lambadas e desistiu de imaginar coisas boas.
Uma noite, assim que o pai dormiu, jogou-se para fora do casebre, aos tropeções. Caminhou pela estrada sem lua, guiando-se pelo instinto. Só notou que havia se distanciado muito de casa quando avistou o galpão desconhecido, plantado no meio do nada como um monstro imóvel. Extasiado, empurrou a enorme porta dupla e recebeu a escuridão. Acolhido por um sopro morno, deixou-se tragar por uma sensação que só mais tarde reconheceria como conforto. Um cheiro confuso e distante chegou às suas narinas, como se o alimento impregnado naquelas paredes  não tivesse partido nos caminhões da fazenda.
Nessa noite, e em todas as outras que se seguiriam, deitou-se no chão do galpão sem pensar nas horas, enquanto olhava para cima e via o céu de estrelas pelas frestas das telhas. Repousando as tristezas naquela escuridão entremeada por filetes de luz, inventou para si uma vida sem as surras do pai, sem a colheita extenuante, sem os lamentos da Rosarinho estuprada. E, aos poucos, permitiu até que a memória voltasse às trilhas douradas da infância, às cores dos pássaros, ao cheiro do pão que a mãe assava ainda de madrugada para que ele não fosse para o campo sem alimento. Descuidou-se da realidade e sonhou com uma família, com uma mulher tão boa quanto a mãe, e com uma prole bem nutrida.  Em seu sonho, o que esperava por ele a cada fim de tarde era uma mesa de feijão e carne e risos e felicidade. 
Seguiu assim, noite após noite. Sentia a dor da coça, lambia o sangue dos lábios, ouvia os gemidos de Rosarinho, esperava o silêncio da casa e corria para o galpão abandonado. Na volta, sempre faltava pouco para o amanhecer, mas  não sentia cansaço. Seu sono já tinha se alimentado. 
Então, aconteceu aquela noite horrível.
Pedro soube, no momento em que se deitou na escuridão, que o seu colchão de terra havia sido maculado. Faltava poeira sob suas costas. Alguém havia estado ali e pisado tudo sem cuidado. Profanação. Olhando para o alto, sentiu tarde demais o fedor dos excessos de Sebastião.
— Tu achô que ia me enganá até quando, seu merda? — o homem bêbado gritou, levantando a mão para o primeiro murro.
Pedro se encolheu no piso duro para esperar os golpes. Mas, soltando uma gargalhada boçal, o pai mudou de ideia e o apanhou pelo cós da calça, tentando virá-lo de costas para penetrá-lo como fazia com a irmã. E enquanto forçava Pedro a ficar de quatro para a violação, espumava pelos cantos da boca.
— Hoje tu vai sabê quem manda, moleque! Vô te isganá que nem eu fiz com aquela égua da tua mãe!
Muito tempo depois, quando sentiu a dor insuportável nos nódulos da sua mão direita, Pedro percebeu uma viscosidade entre seus dedos. Esfregou as mãos na terra várias vezes, até que parou de senti-las grudando. Um cheiro doce e enjoativo impregnava o ar. Levantou-se, mas na tentativa do primeiro passo tropeçou em alguma coisa que o derrubou. Tateou o chão até sentir de novo as mãos meladas pelo sangue de Sebastião. E sentiu o mau cheiro da aguardente barata que se desprendia do morto. Incapaz de pensar, fugiu sem voltar os olhos para o galpão.
Em casa, chamou por Rosarinho. A menina, surgindo detrás do pano que era usado como cortina, deitou nele o olhar opaco.
— Eu matei o pai, Rosarinho — disse, sem encará-la — Ele foi atrás de mim e quis fazer comigo o que faz com tu. E ainda me disse que esganou a mãe. Aí, eu matei ele, minha irmã. Matei, matei!
— Matou não, Pedro. Quem matou o pai fui eu — a voz dela soou sem inflexão.
— Deixe de bestagem! Num repete isso! Cumé que tu ia ter matado o pai?
— Com a faca... Com a faca dele.
Rosarinho estava fraca da cabeça. Coisa do sofrimento que passava nos estupros. Tinha que ser! No entanto, tudo o que Pedro se lembrava era do pai tentando abusar dele. E, depois, das mãos cobertas de sangue. Mais nada.
— Tu num lembra de nada, num é? — continuou a menina — É porque não foi tu que matou o pai.
— E como foi que tu fez isso, Rosarinho? — ele se desesperou.
— Tem é tempo que eu te sigo toda noite. Tinha medo de ficá aqui sem tu. Eu ficava do lado de fora do galpão, escondida, te esperando. Daí, hoje, eu vi quando o pai chegou lá. Tu bateu muito nele, Pedro. Tu bateu tanto que ele caiu no chão feito um saco vazio. Mas tu num matou ele não. Quando eu entrei, o pai tava desmaiado e tu também. Peguei a faca na cintura dele e enfiei uma, duas, três, quatro...
Olhos vidrados, a menina repetiu no ar o trajeto que a faca fizera no bucho de Sebastião. Dezessete vezes. Pedro tentou abraçá-la, mas ela o empurrou, passando para o outro lado da cortina improvisada, novamente muda.
Ele se descontrolou, sentindo um medo imenso pela irmã. Sabia que logo que amanhecesse a polícia encontraria o cadáver e chegaria até eles. E levariam Rosarinho para longe dali. Acostumara-se a esquecer de si mesmo porque lhe convinha sobreviver à dor, mas não aguentaria ver a vida dela destroçada.
Desesperado, perguntou o que ela fizera com a faca, mas a irmã não respondeu, trancada em seu mundo impenetrável. Vendo que muito em breve haveria claridade, ele correu para o galpão. Era preciso esconder a faca antes que a polícia fosse avisada do corpo.
Não encontrou nada no chão e nem nos matos ao redor da construção. Desesperado, pensou que teria de desistir da busca. Foi quando lhe ocorreu o pensamento. Tateando o corpo de Sebastião, encontrou enfiada em sua barriga a faca que descansava da função macabra de assassinar seu próprio dono. Sem pensar, puxou a arma e a embrulhou na camisa, correndo para longe. Já bem distante do galpão, usou a faca ensanguentada para fazer um buraco fundo e a enterrou. Esfregou novamente os dedos na terra, até que o barro cobriu as manchas marrons do sangue coagulado. Então, arrancou a camisa manchada e rumou para casa. A manhã ainda não tinha chegado quando, nos fundos do casebre, a fumaça das roupas queimadas de Pedro e Rosarinho subiu ao céu, malcheirosa, levando consigo a morte. 
A menina nunca mais falou. Nem no enterro do pai, nem durante as investigações feitas apressadamente pela polícia local. Não houve esforços para encontrar o culpado. Sebastião não valia o empenho. Dias depois, os dois irmãos foram levados para a casa da tia, na capital. Nunca mais voltaram ao galpão. Nem depois que os anos se passaram e ambos retornaram para o campo, para a velha casa, trazendo, a reboque, a companheira e os filhos de Pedro. Os fantasmas do tempo foram enterrados pelos risos das crianças. Na mesa, um cheiro de feijão e de carne.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário