quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Lama

Olhou-a pelo canto do olho. Timidamente. Nada. Nenhum gesto, nenhum sinal de que ela o percebia ali tão próximo. Tossiu, esperando que o barulho a fizesse virar-se. Ao contrário. Ela abaixou ainda mais a cabeça na direção da revista que a entretinha. Podia jurar que a tinha irritado. Será?
Era assim já havia um tempo. Ele se consumindo de paixão e de tesão a cada vez que entrava naquela sala apertada. Se esta sala fosse maior... Se pelo menos as nossas mesas fossem mais afastadas... Tolice. Consumia-se dia após dia entre os batimentos acelerados e a vontade que crescia dentro das calças. E agradecia a Deus e ao diabo pela mesa de trabalho que encobria os seus desejos. Talvez se eu tivesse coragem de conversar com ela, se eu pudesse mostrar que sou um cara legal... Ilusão. Só os dois naquela sala apertada; e ele travado. Rotina. Ele, com seus documentos e processos. Ela, sempre ao telefone, no computador ou na sala do chefe. 
No fim do ano, na festa da empresa, esbarrara nela uma ou duas vezes. De propósito. Só para pedir desculpas e obrigá-la a dar-se conta de que ele existia. Mas nem um muxoxo. Enquanto ainda dizia “desculpe”, ela já tinha sumido. Um inseto. Uma mosca. Era o que ele era. Não. Uma mosca chamaria a atenção pelo barulho irritante, mas chamaria a atenção. Ele, não. Não era mosca. Nem isso.
Naquela manhã, entrou na sala com ares de “hoje vai”. Perfume francês que só colocava para ir a festas ou a motéis baratos, das raras vezes em que aparecia uma mulher para transar. Roupa de missa; sapatos de Ano Novo; cabelos de boate — com topetinho feito a gel. "Topa sair comigo hoje?". Não, não estava bom. “E aí, gata, que tal um barzinho hoje?”. Que droga! Nem que tivesse 15 anos. “Escuta, tem tempo que ando querendo convidar você pra sair...”. Assim estava melhor, com reticências. Afinal, o máximo que podia acontecer era levar um fora. Um fora, esse era o problema. Não pela rejeição, à qual estava acostumado, mas por antever como seria a sua vida naquela sala apertada depois do fora. Convivência impossível, vergonha, frustração.
Desistiu, mais uma vez. Até a hora do almoço. Certo de que precisava dar um jeito no que sentia no coração e dentro das calças, tomou duas cervejas e um copinho de pinga durante a refeição. De comida mesmo, só umas três garfadas para forrar o estômago. Almoço de boteco: comida ruim, pinga barata. Que pena que não tenho grana pra mais um copinho, pensou, recontando o dinheiro. Conferiu o relógio de pulso e viu que ainda tinha uns trinta minutos, mas preferiu voltar para o escritório assim mesmo. Queria treinar o convite que faria a ela, antes de colocar na boca as balas de menta que comprara com o troco do almoço. Ah, hoje vai!, pensou, animado pelo álcool.
Assim que chegou, viu que o escritório ainda estava todo apagado. Dirigiu-se, então, à sala do chefe para fazer o que era de costume: quem chegasse primeiro, pela manhã ou depois do almoço, tinha a tarefa de ligar seu ar condicionado, arrumar sua mesa e recolher o lixo do cesto. 
Entreabriu a porta. Silencioso e lento como sempre. E aí ouviu os gemidos. Parado na soleira, acostumou a vista à penumbra até conseguir enxergar os dois corpos contorcendo-se em sexo sobre a mesa de reuniões que ficava mais à direita, ao fundo. Macho e fêmea em sexo irrestrito. Sexo de braços, pernas, bocas e suor. Sexo com sons que ele nunca ouvira. 
Pensou em sair bem devagar, pé ante pé. Depois, em sair e voltar para bater à porta. Por último, em sair e esquecer o que vira. No entanto, continuou ali, na porta, no escuro, consumindo a beleza daquelas nádegas que cavalgavam um corpo que bem podia ser o seu. Mas não era.
Ele e um medo súbito de ser visto. Ele e um medo covarde de que sua respiração entrecortada pudesse ser ouvida. Ele e um medo horrível de ser despedido e de ter que passar a viver sem ela, sem a sala apertada, sem o tesão embaixo da mesa. Foi quando lembrou que não era inseto. Não era mosca. Não fazia barulho. Nem isso. E seus olhos mergulharam novamente naquelas nádegas galopantes.
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Seguiu a pé em direção ao rio, o barro da chuva da véspera lambuzando os pés expostos pelas sandálias de tiras. Os homens haviam tentando impedi-la, mas ela era mais ágil do que eles. Não tinha quem a fizesse desistir daquela vontade. Vontade de mãe. Ninguém ia afastá-la da cria. Que mãe não aguenta distância de filho; que mãe não dorme, não sossega enquanto não enxerga e confere se está tudo lá: dois braços, dois pés, duas orelhas, dois olhos lindos, cor de jabuticaba. Tudo. 
A chuva estava começando outra vez e vinha de aguaceiro. Nada pouco, que o céu adora um desperdício. Ela precisava correr se quisesse alcançar a margem do Rio Verde antes que o temporal a obrigasse a se abrigar. Não. Não podia parar de jeito nenhum. Parar só o tempo. No antes, no mais cedo. Tropeçou em um tronco podre escondido na lama, escorregou e feriu a mão em um pedaço de madeira esfiapada. O sangue vivo brotando da pele, dando alguma cor à natureza cinza. Esfregou a mão machucada na saia, tentando limpar o ferimento, mas continuou andando. Merda! Não ia se atrasar por causa de dor. 
A cortina de água parecia um muro de cimento. Mas não era. Só ilusão. O chão irregular, o rio bravo, o céu desfeito, tudo continuava lá, atrás daquela parede falsa. Seguiu pisando com pressa, sem escolher onde afundar os pés, agora já totalmente imundos de barro. Força. Precisava de força para seguir em frente. Nada de tomar cuidado, que cuidado  desvia da intenção.
Avistou os homens à beira d'água, enfileirados como os bonecos de jornal que o pai recortava para ela brincar de sombras na parede do quarto pobre, iluminado apenas pela luz de velas. Fazia tanto tempo. Não era mais menina. Nem pobre. E os homens não estavam brincando. Ajeitavam alguma coisa em uma lona amarela e, por uns instantes sem contexto, ela pensou que aquele amarelo ficava lindo na chuva, como um sol molhado. Os homens tentavam levantar o fardo. E a cada vez que tentavam, a água fazia com que a lona escorregasse de suas mãos.
A falta de visibilidade causada pelo temporal não deixou que a vissem se aproximando. Até que foi tarde demais. E o grito que ninguém escutou foi por causa dos trovões. Empurrando os homens com chutes e socos, livrou-se dos braços que queriam segurá-la e abriu a lona amarela jogada no barro mole da beira do rio. Nem sentiu as unhas sangrando. Nem sentiu os braços se estirando pelo esforço. Mãe não aguenta distância de filho; não dorme, não sossega enquanto não enxerga e confere se está tudo lá: dois braços, dois pés, duas orelhas, dois olhos feios, abertos, opacos, azulados pela morte.
Abraçada ao corpo frio e mutilado, ela odiou o rio, a correnteza e o redemoinho traiçoeiro que puxava as vidas para o fundo, tornando-as carcaças disformes. A mão sangrava novamente. E as unhas. E a alma. Um dos homens prometeu que levaria o corpo para casa. Sim, ela o queria em casa. No quarto inundado de luz elétrica, onde o computador esperava com mensagens. Protegido da chuva, do rio. Lá, ele era seu menino. E não aquele rapaz cheio de si, cheio de vontade própria. Vontade de pular no Rio Verde, de enfrentar o redemoinho da morte e ser herói para os amigos, para as mocinhas cheias de hormônios.
Maldito! Maldito! Desobediente, malcriado! Viu? Viu no que deu você não me escutar? Viu agora que mandar na própria vida é decidir sozinho a própria morte? Quem estava com você no sorvedouro? Que mão agarrou a sua mão, puxou o seu braço? Quem mergulhou para lutar por você? Maldita criança estúpida! Por que é que você tinha que querer ser homem?
Desviou os olhos do caixão que descia silencioso, sendo engolido lentamente pelo chão de lama do campo santo. Ao redor, os rostos jovens e assustados a emocionaram por alguns segundos. Mas logo teve raiva deles. Seriam os próximos. Presos às ferragens retorcidas de um carro, vencidos pela overdose inesperada, abatidos por tiros em uma briga sem sentido. Achando graça. Orgulhosos por terem crescido. Sem saber o preço da morte.
Voltou a pensar no fundo do rio, na força das águas entrando nos pulmões do filho, tirando-lhe o ar. Deixou que a levassem embora, que a deitassem na cama imensa e que lhe dessem o remédio mágico que congelaria a sua dor por algumas horas. Quando o aperto no peito voltasse, tomaria mais um, antes que a garganta gritasse.
Algum tempo depois, acordou, sentindo-se abraçada. Olhando em volta, viu os bonequinhos de papel ao redor do próprio corpo. Na cadeira de balanço, o pai, roupa velha, sorriso farto. Correu até ele, deitando a cabeça naquele colo que balançava o passado. Sentiu o cheiro da pobreza. Um cheiro feliz. Depois viu o filho, sentado no chão, mãozinhas miúdas montando alguma coisa com as peças de um jogo colorido de madeira. “Um castelo pra você, mamãe”.
E então aquele cheiro enjoativo de lama. Lama de rio, de fundo de rio. Lama de morte. No quarto escuro, realidade. Dormiu novamente. Só queria acordar para ser sonho.  

2 comentários:

  1. Palavras fortes, mas que nos leva a tantas reflexões. Amor de mãe é realmente incondicional. As vezes não compreendemos o porquê de certas atitudes de nossas mães, porém no fim, elas sempre têm razão.

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