segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O homem perfeito

Ilustração: O Homem Vitruviano de Leonardo Da Vinci


A decisão estava tomada. Ele se mataria naquela noite. Estava orgulhoso de si mesmo. Afinal, ia se matar pelo motivo certo. Pensou nos homens que conhecera e que haviam decidido tirar a própria vida. Motivo: falência, chifre, doença terminal. Não, ele não era um desses que se matam por dinheiro. Ou porque são cornos. Ou ainda porque não aguentam sentir dor. Ele era, por assim dizer, completamente normal.
Não deixaria um bilhete. Homens que deixam bilhetes são todos uns dramáticos. Morrem querendo deixar para trás uma dezena de culpados. A mãe que devia ter entendido os sinais; a esposa que não devia ter gastado tanto; a amante que não devia tê-lo trocado pelo garotão mais novo; os amigos que deviam ter oferecido um ombro em vez de deboche. Não, homens que escrevem palavras de adeus são vingativos. Sempre querendo semear o remorso, infernizar os vivos.
Ele morreria de forma muito digna. Morte com planejamento. Já tinha pagado até pelo caixão e pela cremação. E por uma corbeille grande, com faixa escrita e tudo. Uma corbeille... Mas afinal o que era a porra de uma corbeille? Não sabia. Alguma coisa que se usa em enterros, com certeza. E que é chique. Senão a mocinha da funerária não teria lhe vendido com tanto orgulho o pacote 3C Primeira Classe, ou 3C-PC, como era carinhosamente chamado. Bem, isso ele sabia explicar o que era. Um pacote 3C-PC  significava caixão-corbeille-cremação. Aliás, essa tinha sido uma das razões que o haviam levado a escolher entre ser enterrado ou  virar cinzas. Explica-se. É que havia dois pacotes 3C disponíveis. O de Primeira Classe, composto por caixão-corbeille-cremação, como já se disse. E o Executivo, ou 3C-E, oferecido com caixão-corbeille-cova. A propaganda impactante feita pela Boutique do Último Leito (sim, mortais, funerária é coisa do passado) contribuiu decididamente para a escolha. Do pó vieste, ao pó retornarás. Mas tu decides como,  dizia o folheto com letra em negrito. Embaixo dos dizeres, duas fotos: em uma delas, um caixão sendo baixado à terra por homens circunspectos; na outra, uma urna de porcelana magnífica, nas mãos de uma pessoa sorridente. Na verdade, ele havia achado o sorriso um tanto excessivo. Mas a mocinha das vendas logo o fizera mudar de ideia. "Veja bem que é o sorriso de alguém feliz por poder levar consigo as cinzas da pessoa amada." Como é que ele não tinha pensado nisso? De um lado o chão frio e úmido dos vermes, de outro o frescor da porcelana acolhendo as suas cinzas. Tudo bem que essa frase também era da mocinha, mas serviu bem naquele momento de decisão.
Fez tudo sozinho. Não podia envolver no processo as secretárias, nem a família, nem os amigos. Não se imaginava dizendo "Eu gostaria da sua ajuda para organizar a minha morte". Não, eles não entenderiam. Como explicar que se mataria porque era feliz? Que não havia nada que já não tivesse feito na vida? Que tinha alcançado o que todos os homens desejam: a plena realização — e que, exatamente por isso, estava na hora de morrer?
Tudo em sua vida era perfeito. Tinha sido uma criança feliz, sem traumas. Um adolescente bem sucedido, bom aluno, cheio de amigos e namoradas. Adulto, tinha ficado rico. Muito rico. De um tipo de rico que não se vê, só se ouve falar. Antes dos 40 anos, já conhecia 24 países. Em 10 deles comprou propriedades luxuosas e estabeleceu-se em negócios diversificados. Casou-se com uma mulher linda e gostosa. Deus, como era gostosa! Mas não o bastante para impedi-lo de ter todas as amantes que quis, loiras, morenas, roliças, magras, negras, asiáticas. Mulheres discretas que sabiam como chegar e quando ir embora. Teve dois filhos. Lindos como a mãe. Inteligentes como ele. E até mesmo o divórcio foi feito sem mágoas. Separou-se da esposa enquanto ainda a achava bonita e excitante. Porque não queria permitir a si mesmo vê-la definhar com a idade. Porque não deixaria que ela se fosse quando já não a desejasse, ou quando não houvesse mais homens para cortejá-la. Ele a amava demais para esperar ao seu lado o desgaste da relação.
Tinha saúde. E como tinha. Os médicos repetiam a todo instante que ele era um exemplo de homem no cuidado consigo mesmo. Um dos filhos já estava ao seu lado nos negócios e o outro fizera sua própria fortuna. Eles o amavam e respeitavam. E haviam lhe dados netos. Crianças educadas, rosadas e bonitas.
Sem pendências, portanto. Vida perfeita. Podia morrer pelo motivo certo: plenitude. E na noite certa. Estrelada, silenciosa, cheia de uma brisa fresca com cheiro de bos... Bosta?! De onde vinha aquele cheiro de merda insuportável? Aquele fedor de embrulhar o estômago? Alarmado, pensou que nada, nada podia quebrar o clima perfeito da noite da sua morte.
Descendo as escadas com rapidez, saiu correndo, transtornado, pelo jardim meio escuro, buscando a fonte do cheiro fétido. Na pressa, tropeçou nos instrumentos deixados na grama pelos homens que haviam trabalhado à tarde na abertura do buraco da nova piscina. Uma piscina olímpica longa e funda. A topada o jogou para a frente com força e ele se sentiu voando até que estatelou-se em alguma coisa malcheirosa e gosmenta. E nada teria acontecido não fosse o azar de ter batido a cabeça em outro objeto qualquer deixado ali por descuido. Maldito objeto.
Enquanto morria, sentindo o cheiro de merda que, agora percebia, vinha da lama úmida que servia de chão ao buraco, e sem conseguir mover nem um único membro do corpo grande, lembrou-se de que não tivera tempo de escrever as instruções sobre o pacote 3C-PC para deixar sobre a cômoda. Lembrou-se também de que não havia escrito cartas ou bilhetes se despedindo, porque isso era coisa de homens dramáticos. Por fim, lembrou-se de que dissera à mocinha da Boutique do Último Leito para esperar até ser procurada por alguém com instruções. Não seria. E ele não seria cremado. E os vermes lhe fariam companhia. E ele ficaria na terra fria, ossos amontoados, distante de tudo o que amava, sem o frescor da urna de porcelana envolvendo suas cinzas.
Enquanto o sereno descia sobre o seu corpo imóvel, pensou em como gostaria de processar aquela empresa maldita, aqueles operários relapsos. Se ele não morresse, talvez ficasse paralítico. E teria que depender das pessoas e contratar enfermeiras e reformar a casa. Todas as casas. Em 10 países. Se ele não morresse, e ficasse paralítico, se tornaria incapaz para o trabalho, para o sexo. Se ele não morresse, veria, em poucas horas, aquele jardim repleto de policiais colhendo evidências, confiscando os objetos malditos. Se ele não morresse...
Ainda pensava nas possibilidades quando policiais e paramédicos chegaram para salvá-lo, na manhã seguinte. Agora sim. Infeliz, miserável, incompleto, não tinha mais nenhum motivo para querer morrer. Era, finalmente, dono de uma vida imperfeita.


2 comentários:

  1. Gostei, Cinthia, e acho que nada impede a cremação após a doação dos órgãos, não é? Porque a ideia das cinzas no aconchego fresquinho da porcelana até que não é má.

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  2. MUITO bom! Eu adoro os seus escritos, virei fã.
    As vezes felicidade demais, nos traz angústia mesmo. Por que? Porque o homem é acostumado a ter dificuldades/desprazeres, ao longo da sua vida. Se o ser humano não tiver pelo que lutar, pelo que ultrapassar, a vida não faz sentido.

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