domingo, 23 de março de 2014

Acalanto de passagem

A profissão escolhera cedo. Nenhum acaso, nenhuma hesitação. Apenas um desejo de estar lá. De estar lá inteira, com mãos de afagos, lágrimas honestas. E um dó imenso daquele silêncio obrigado, daquela hora repleta de ninguém, do frio permanente. Quisera ser o que era. Tinha que ser. Fora feita para a despedida, para o momento em que os remorsos e a saudade e todos os duelos tramados entre razão e emoção se tornam inúteis.
Quem mais entenderia o nada como ela? Ela que sempre fora nada. Um cisco escondido atrás das portas. Tão leve que sob o seu corpo se recusavam a ranger as tábuas velhas do soalho. Ela e sua presença ignorada. Sem chamados, sem vozes de afeto, sem abraços de carinho, sem direito a querer, doer, gritar. 
Quem mais enxergaria o nada? Esse não ser que ainda assim se desconforma. Esse não ter que ainda assim cobiça. 
Por isso se entregava a eles. Para lhes dar o impensado: atenção. Uma ou duas carícias suaves no rosto frio, na cabeça fria, nas mãos postas em entrelaçamento de oração. Tivessem ou não fé. Para lhes recitar um monólogo curto de acalanto. Um acalanto de passagem. 
Ela escolhera. Em cada ida ao quarto apertado e sem janelas da avó doente, esquecida sobre a cama suja. Em cada poço negro que vira no fundo dos olhos da mãe traída, abandonada. Escolhera que morrer devia ser sem solidão. 
Quando começou na profissão de preparar os mortos, ninguém ligou. Não houve desprezo, nojo, deboche. Ela não valia opinião. Não rangia tábuas. Então, ficou sozinha com o primeiro corpo. Depois com outro, e mais outro, e mais tantos que os anos trouxeram. Iguais em sua última presença visível. Nus. Marcados. Solitários. 
Imaginava-os em medo, angústia, ansiedade. Espíritos, energias, matérias, o que quer que fossem. Presos ainda à tensão da vida. Procurando por um rosto conhecido na sala impessoal com cheiro de substâncias fortes. Buscando suas gentes de afeto. Não havia. Ali, só mesmo ela. Para limpá-los, vesti-los, pôr-lhes um terço entre os dedos, pentear-lhes os cabelos. Para fazê-los se sentir um pouco mais que inquilinos em vias de despejo. 
Ela escolhera.


5 comentários:

  1. Texto tão carregado de solidão que me senti angustiada. Talvez o uivo do vento que se ouve aqui. Fato é que há tanta gente assim. "Quem mais entenderia o nada como ela? Ela que sempre fora nada. Um cisco escondido atrás das portas. Tão leve que sob o seu corpo se recusavam a ranger as tábuas velhas do soalho."

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  2. Que texto maravilhoso, ao mesmo tempo triste! " Ela que sempre fora nada. Um cisco escondido atrás das portas. Tão leve que sob o seu corpo se recusavam a ranger as tábuas velhas do soalho." Maravilhoso ser sua amiga e poder participar dessa sensacional leitura! Obrigada, Cinthia!

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  3. Como sempre seus textos me deixam completamente concentrada como se tudo estivesse longe e eu só percebesse as palavras que a se movimentarem e trazerem a cena repleta de emoções seja qual for o sentimento que as integre.

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  4. Tania Ribeiro25/3/14 17:08

    Belíssimo. Triste e delicado.

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  5. Maravilhoso este teu texto! Forte! Intenso!

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