sábado, 31 de maio de 2014

D. Antônia

Solidão, desenho de fbianah/Gartic

Encontrei D. Antônia na cozinha conversando com o cachorro: “É a vida, meu filho." — dizia ao pequeno animal a seus pés. — "Mas a vida dói tanto, é tão injusta!”. Fiquei com medo de me aproximar ou de permitir que ela me visse. Eu estava invadindo a sua privacidade e ninguém gosta de ser visto conversando com o cachorro. Voltei silenciosamente à sala, de onde tinha saído para buscar um copo d’água. Carla achou estranha a minha rapidez:
— Bebeu?
— Não. Melhor deixar pra depois.
— Ué, e não bebeu por quê?
— Sua mãe estava lá.
— E daí?
— Conversando com o cachorro.
Carla soltou uma gargalhada debochada e se levantou, indo para a cozinha, onde discutiu com a mãe por alguns segundos. Em seguida, retornou, trazendo a minha água. Quente. Pensei em lhe pedir uma mais gelada, mas desisti, imaginando que outra discussão iria acontecer.
— Por que é que ela conversa com o cachorro? 
— Porque ela gosta de se fazer de doida, de se fazer de vítima pra todo mundo ter pena dela, entende? Diz que não consegue andar direito, que tem falta de ar... Uma artista!
— O que é isso, Carla!
— Verdade! Vive dizendo por aí que não tem com quem conversar, só com as paredes e com o cachorro. Drama, puro drama! Ela é muito sem noção!
Carla estava agitada demais e se mantinha de pé, como se estivesse se decidindo entre continuar a conversar comigo e partir para um novo confronto com a mãe. Como detesto brigas, perguntei-lhe qualquer coisa sobre a faculdade, para distraí-la. Não adiantou.
— Não precisa mudar de assunto, Gari. Desculpe, viu. É que a minha mãe me tira do sério! — disse, apanhando o controle do som.
A música alta trouxe D. Antônia até a sala. De cenho franzido, olhou fixamente para a filha.
— Que é?  — Carla perguntou, com maus modos.
— Dá para abaixar um pouco?
— Não, não dá! Que chatice, mãe! É só eu começar a ouvir música que você vem me encher!
— Carla, por favor, abaixe um pouco o som.
Dessa vez, o tom de voz era outro.
— E se eu não quiser?
Sem dizer mais nada, D. Antônia atravessou a sala, e eu vi que usava uma bengala. Tomou das mãos de Carla, com firmeza, o controle do som, abaixando consideravelmente o volume.
— Eu não estou pedindo. Estou comunicando que não quero o som alto — disse, brava.
Depois, virou-se para mim, desculpou-se e se retirou em direção ao quarto.
— Que bruxa! Eu odeio essa mulher! — gritou Carla.
— Calma, amiga, calma. Deixa pra lá que é melhor. Vai ver ela está com dor de cabeça.
— Dor de cabeça? Que exploda!
Pouco depois, entrei aliviada no carro, decidida a não voltar tão cedo naquela casa. Eu só queria tomar um banho, conversar com alguém normal, dar risada. Que clima! Que barra ter uma mãe como aquela!
                                                     
     ***

O toque insistente do celular me acordou às sete da manhã. Quem seria o infeliz que estava me ligando àquela hora...? O nome de Carla aparecia no visor.
— Oi... — balbuciei.
— Por favor, me ajuda! Acho que a minha mãe está passando mal! Vem pra cá! — disse, desligando em seguida.
Saí sem banho e sem café. Em menos de 10 minutos, me deparei com o portão aberto da casa de Carla. O jardim parecia remexido, como se alguém tivesse cavado desordenadamente. Antes que eu tocasse a campainha, ela escancarou a porta com força. Estava agitada e suas mãos tremiam.
— O que é que a sua mãe tem?
— Não sei. Ela não fala. Não fala nada.
— Como, não fala? Está desmaiada?
— Não. Está sentada no quarto, olhando pro vazio, com a bengala entre as mãos!
Sentada na beira da cama, uma mulher que parecia engolida pelo quarto grande e confortável.
— Bom dia, D. Antônia. A senhora está doente? — tentei o óbvio.
A cabeça se moveu com suavidade em minha direção, mostrando que ela tinha ouvido. Mas não me respondeu.
— A gente está preocupada com a senhora. Está sentindo alguma dor?
Ela fez um gesto leve e sem sentido em minha direção, mas continuou calada. Carla estava atrás de mim, desnorteada.
— Levo ela pro hospital, não levo? Acho melhor. Ela está esquisita demais, Gabi!
— Está mesmo — concordei.
— Você viu os olhos dela? Nenhuma reação! Logo ela que sempre falou com os olhos!
Era isso o que mais estava me assustando, aqueles olhos sem vida, sem emoção que tinham pousado em mim, indiferentes, por duas vezes.
— Vamos para o hospital — decidi.
Carla se aproximou da mãe com receio, certa de que ela iria resistir. Mas D. Antônia se deixou conduzir mansamente até o carro.
No hospital, depois de alguma demora no atendimento, o médico ainda pediu uma bateria de exames que só ficaram prontos quase duas horas depois da consulta.
— Vou precisar internar a sua mãe por 72 horas.
— Internar? — Carla me olhou, buscando apoio.
— É rotina. Precisamos primeiro controlar a hipertensão e aliviar o inchaço dos joelhos e dos pés. Você sabe que remédios ela toma?
Tive certeza, só de olhar para Carla, que ela nunca tinha acreditado que a mãe era realmente doente. 
— Preciso que você procure nas coisas da sua mãe os remédios que ela toma. — insistiu ele — E que pegue autorização com o seu convênio para esta guia de internação.
Vendo que Carla não se mexia, ele continuou:
— É só ir à recepção e preencher os papéis. Depois, não se esqueça de dar um pulo em casa pra me trazer os remédios, certo? — ele insistiu. — Enquanto você vai, o psiquiatra faz uma primeira avaliação.
— Psiquiatra? Por quê?
— Porque nem a artrite nem a hipertensão são responsáveis pelo quadro que a sua mãe apresenta. O psiquiatra vai tentar saber o que aconteceu, ver se houve algum trauma, entende?

Os remédios estavam no quarto de D. Antônia, no fundo do armário, dentro de uma caixa de plástico com tampa. Junto com eles, uma carteirinha de convênio médico. Voltamos ao hospital imediatamente, pegamos a autorização na portaria e retornamos ao quarto. D. Antônia estava sentada na beira da cama, olhos abertos e inertes. Ao lado dela, o psiquiatra conversava com o médico que a tinha atendido na emergência. Carla entregou a ele a guia autorizada e os remédios.
— E aí, doutor, alguma novidade? Já sabe por que ela não fala? — ela perguntou, ansiosa.
— Só sei que ela passou por algum trauma — respondeu o psiquiatra. — Os olhos estão dilatados, ela esta insensível à dor física e eu sei que ela pode escutar tudo o que nós estamos falando. Só que se desconectou de tudo o que é externo.
— Quanto tempo ela vai ficar assim?
— Isso, eu não sei dizer. Vai depender da resposta ao tratamento. Dei a ela um remédio para dormir e amanhã vou tentar estabelecer alguma forma de comunicação.
— Eu posso dormir aqui com ela? —Carla quis saber.
— Poder, pode, mas eu preferia que você fosse para casa e tentasse descobrir alguma causa para o comportamento da sua mãe.
— Não, doutor, eu vou ficar aqui! — ela insistiu.
— Eu durmo na sua casa, Carla — ofereci.
Ela aceitou e me pediu que procurasse em todos os cantos por alguma coisa que pudesse ter causado a apatia da mãe. Lembrou também que o cachorro devia estar assustado, e que precisava de água e comida; e me recomendou para fechar bem o portão, as portas e as janelas na hora de dormir.
Entrei na casa escura com uma sensação ruim. Acendi rapidamente a luz de todos os cômodos, como se aquilo pudesse impedir o meu desconforto. Chamei o cachorro, mas ele não veio. Devia estar escondido em algum canto, assustado. Tudo estava arrumado, como sempre, menos o controle da TV e uma xícara com um resto de chá, caídos ao lado de uma mesinha de canto. Alguém tinha se levantado apressadamente e derrubado os objetos no chão, sem se preocupar em recolhê-los. Quando me abaixei para pegar a xícara, vi a marca do batom amarronzado de D. Antônia na borda.
No quarto dela, nada estava fora do lugar. A cama parecia não ter sido desfeita e, considerando a hora em que Carla havia me ligado pela manhã, percebi que D. Antônia não tinha sequer se deitado, na noite anterior. Em cima da cômoda, um batom, uma colônia, uma escova de cabelos de cabo de madeira e alguns outros objetos de uso pessoal.
Como Carla tinha me pedido para procurar em todos os lugares, abri a gaveta da mesinha de cabeceira. E lá estava um caderno grosso; um diário. Por um momento, hesitei sobre abri-lo ou não. Eu não tinha o menor direito de invadir a vida daquela mulher. Mas decidi pela leitura e, depois da primeira linha, a curiosidade foi maior.
  
14 de março. Pedi a Carla para comprar pão e passear com o Filé, porque minhas articulações estão inchadas e eu sinto muitas dores quando ando, mas ela se esqueceu. Quando cobrei, me disse que não tem obrigação de fazer isso. Melhor não insistir.
23 de julho. Hoje, quando me apoiei no braço de Carla para não perder o equilíbrio, ela me afastou. Disse que estou pesada demais para me apoiar nos outros. Preciso perder peso com urgência!
31 de agosto. Melhor não contar para a Carla que a minha pressão está muito alta. Ela vai dizer que é porque eu sou estressada, ou então que estou fazendo drama para chamar a atenção. Atenção de quem?
2 de setembro. Assim, não é possível! A diarista mal acabou de ir embora e o quarto de Carla já está cheio de roupas e sapatos por todos os lados! Estou tão cansada, com os joelhos doendo, mas tive que dar um jeito naquela bagunça. Carla me chamou de chata, de insuportável. Depois, me pediu para nunca mais entrar no quarto dela e para não mexer em nada. Por que é que eu sou tão intrometida, meu Deus?
11 de novembro. Sentei na cama de Carla agora à noite para lhe contar que recebi um dinheiro e quero dar a ela umas roupas, mas ela me mandou calar a boca para não atrapalhar o filme. Reclamei que não merecia a estupidez, mas ela me disse que eu sou muito invasiva. Puxa, eu só queria que ela ficasse feliz porque eu vou poder comprar o vestido e a bota que ela me pediu semana passada!
12 de novembro. O Filé é mesmo uma gracinha! Lambe os meus pés inchados toda hora e não pode me ouvir gemendo que vem me dar carinho.  Dorme comigo toda noite, e deu pra se deitar no meu travesseiro como se fosse gente. Um amorzinho esse cachorro. E pensar que eu nem olhava muito pra ele.
5 de dezembro. Carla não me esperou para irmos juntas à formatura dela, porque eu estava atrasada. Ela foi com o nosso carro e o meu táxi demorou a chegar. Mas eu ainda peguei a cerimônia antes do final. Mesmo assim ela se recusou a tirar fotos comigo, porque disse que se eu estivesse preocupada com isso tinha chegado na hora. Tirou fotos só com os colegas e com as mães de alguns deles.
6 de dezembro. Filé, sem você por perto eu não sei como é que eu ia agüentar. É tanta dor que eu já nem sei o que dói no corpo e o que dói na alma, Eu amo tanto você, meu bichinho!
24 de dezembro. Eu fiz uma pequena ceia de Natal só para nós duas, mas Carla me avisou na última hora que ia cear com os avós. Depois que ela saiu, fiz um prato para mim e outro para o Filé, cheio de chester e frutas. Ele comeu tudo, o danadinho. Feliz Natal, meu lindo!
27 de dezembro. Passei muito mal ontem à noite. O coração disparou e minha cabeça doeu muito. Fiquei com medo de ser um derrame e chamei a Carla várias vezes, porque ouvi o barulho do teclado do computador no quarto dela. Acho que ela não ouviu. Melhor mesmo não ter incomodado. Não era nada.
16 de janeiro. Filé hoje está muito esquisito e eu acho que é melhor levá-lo ao veterinário. Ele está tremendo, não quer comer e mal consegue andar.
28 de janeiro. O veterinário não sabe mais o que fazer com o Filé. Acho que o meu querido vai morrer. Ah, meu Deus, por favor, não deixe isso acontecer! Eu não sei o que vai ser de mim sem ele! É tão duro ver o bichinho sofrer e não saber o que fazer! Eu quis contar pra Carla, mas ela aumenta o som cada vez que eu tento falar com ela. Deixa pra lá.
6 de fevereiro. Eu conversei com o Filé hoje à tarde, lá na cozinha, e eu sei que ele entendeu que eu não mais tenho como ajudar ele a ficar bom. Eu não tenho dinheiro pra comprar remédios importados pra ele. Se pelo menos a Carla estivesse trabalhando...  Ah, meu Filezinho querido, vai ser tão difícil perder você! 
7 de fevereiro. Filé morreu esta madrugada. Não deu tempo nem de levá-lo ao veterinário pra ele morrer sem dor. Faz pouco mais de uma hora, coitadinho. Ficou até o fim no meu colo, ganindo muito e olhando pra mim.  Mas ainda teve forças pra me lamber antes de ir. Eu decidi que quero ele bem perto de mim. Enterrei o corpinho no jardim, aqui embaixo da minha janela. Carla chegou da rua tem pouco tempo; acho que estava na boate. Ela falou alguma coisa comigo. Não sei o que foi. Não quero falar com ela nem com ninguém. Só quero falar com o Filé. Ainda bem que ele está aqui tão pertinho.

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