segunda-feira, 19 de maio de 2014

Sangue do meu sangue, onde espirras?

O irmão estava cada dia mais parecido com o pai, falecido há mais de uma década. O mesmo corte de cabelo, o jeito de andar, as sobrancelhas espessas despenteadas. Não fosse pela altura, de mais uns dez centímetros, e Zé Antônio seria uma cópia do velho Otacílio. Encontravam-se pouco, apesar de morarem na mesma cidade e de dividirem a direção dos dois negócios herdados do pai. É bem verdade que se falavam semanalmente pelo celular, mas o contato físico só acontecia por ocasião de reuniões de negócios urgentes, aniversários, batizados, casamentos, formaturas e festas religiosas, como a Páscoa e o Natal.
Abraçando-se à porta da igreja, daquele jeito peculiar que os homens têm de bater a mão com força nas costas um do outro, aproveitaram os minutos que faltavam para começar a missa do galo para conversar. 
— Zé, eu estava te olhando de longe. Você está a cara do papai. A voz, o jeito, o cabelo. Impressionante como está igualzinho!
— Você já se olhou no espelho, Chico? É você quem está cada dia mais a cara do velho Otacílio, meu irmão! E ainda tem a mesma altura que ele.
Não, ele nunca se dera conta de que também se parecia com o pai.
— Jura?
— Pergunte a quem quiser. Até a mamãe comentou isso comigo.
— A mamãe não conta. Ela vive chamando nós dois pelo nome do papai. Sabe-se lá o que se passa naquela cabeça confusa.
— Dá um desconto, Chico! Afinal, são 89 anos. A gente não chega lá, meu irmão. E ela tem seus momentos de lucidez, sabia?
Não, não sabia. Zé Antônio tinha levado D. Amélia para morar com ele assim que o pai morrera. Como filho mais velho lhe cabia amparar a mãe na viuvez e na velhice. Tinham sido criados assim, respeitando os pais, assumindo responsabilidades. Mas ele se ressentira com o irmão. Não por causa da decisão de abrigar D. Amélia, mas pelo fato de que Zé Antônio sabia que ele não se dava muito bem com a cunhada, Berenice. Toleravam-se, mas não o suficiente para que Chico se sentisse à vontade na casa daquela mulher cheia de ideias liberais com as quais tentava influenciar a mulher dele e os filhos. Berenice gostava de provocá-lo dizendo coisas como “mulher que não trabalha fora, marido não respeita” ou “imagina ter que pedir dinheiro ao marido até para comprar calcinhas!”.
A gargalhada de Zé Antônio o salvou dos pensamentos magoados.
— Pensando bem, Chico, nem eu nem você puxamos ao papai em gênio, não é? O velho era metódico, cheio de regras, de preconceitos. Eu não tenho regra pra nada. Nem sou preconceituoso.
— Nem eu, Zé. Papai era cheio de manias. O chinelo não podia ficar ao lado da cama, lembra? Ele dizia que acordava sufocado se qualquer coisa ficasse no chão perto dele.
— Que loucura! Deixava o chinelo na porta do quarto. E ai de quem mexesse!
— E a mesa, Zé? Lembra como ele deixava a mamãe doida com aquela “ordem lógica”?
— Copos virados com a boca para baixo, colocados numa bandeja bem no centro e cobertos por um pano branco. Nunca entendi o porquê do pano se os copos já estavam emborcados.
— Porque ele dizia que protegia da poeira. “A gente lava as mãos para vir comer. Se o copo estiver empoeirado, adeus higiene”. Os pratos também tinham que estar com a borda voltada para a mesa. E os talheres só podiam ser distribuídos quando todo o mundo já estivesse sentado.
— Pra dizer a verdade, papai era um chato, hein? 
— Muito! A gente não podia nadar até três horas depois de almoçar, não podia dormir de cabelo molhado, não podia andar descalço...
— Não podia andar com o filho do Manuelzinho, porque ela dizia que o garoto era “afeminado”. E nem com os meninos do Sebastião da quitanda, porque não eram do nosso “meio social”. Preconceituoso que só ele!
— Pior era ter que arrumar o armário todo domingo. Um ritual! Primeiro as blusas brancas, depois as coloridas, e em seguida calças, casacos e uniformes. Cuecas na primeira gaveta. Cintos enrolados na segunda. E a gente ainda tinha que ouvir aquela frase: “Como é que alguém consegue...
— ... viver no meio desta bagunça”. Nossa! Ele vivia repetindo isso! Do banheiro ao quintal, esse era o bordão do velho! Quer saber de uma coisa? Nós só saímos parecidos com o velho na aparência. No mais... Eu não concordo com esse negócio de que filho puxa aos pais, não. Eu sou bagunceiro até hoje, Chico. Odeio coisas certinhas, regras, hora certa para tudo. E sou agitado, bem diferente da mamãe.
— Também não acredito que a gente seja igual a eles. Papai era mandão e sistemático, e mamãe uma boba que só fazia as vontades dele.
Antes que chegassem a lembranças indesejadas, em meio às quais estaria uma mulher submissa e humilhada, que não podia fazer nada por decisão própria e que nunca defendia os filhos ou impedia o marido de ser mais um comandante que um pai, a missa começou, livrando-os do passado.
Duas horas mais tarde, já estavam todos reunidos na casa de Chico, a quem cabiam as honras da ceia naquele ano. Desde que o velho Otacílio morrera, combinaram que o Natal seria cada ano na casa de um irmão. E que cada ano um deles levaria D. Amélia em viagem de férias com a família. As idas da mãe ao médico; as compras de frutas, legumes e verduras na cooperativa, que eram consumidos semanalmente pelas duas famílias; a presidência do escritório de advocacia e da firma de contabilidade, ambos herdados do pai: tudo providenciado e gerenciado alternadamente pelos dois irmãos em sistema semanal, quinzenal, mensal, permanente. Não fosse pela mulher de Zé Antônio trabalhar fora, Chico poderia dizer que ele e o irmão, sim, tinham vidas muito parecidas.
Dava gosto ver a cena. Sala enfeitada e iluminada, árvore de Natal gigantesca, cheia de presentes em volta. Esparramados pelo espaço amplo, D. Amélia, a esposa e os três filhos de Zé Antônio, com suas respectivas mulheres, e os cinco netos. E ainda a esposa de Chico, seus quatro filhos, duas moças e dois rapazes, seus dois genros, uma nora e quatro netos. Só um dos filhos ainda não se casara e Chico tinha dúvida de que o fizesse. Talvez fosse apenas avesso ao casamento, talvez fosse homossexual. Ninguém sabia ao certo e Chico preferia mesmo não saber. Já pensara no assunto e decidira que não conseguiria conviver com o filho, caso ele se declarasse abertamente gay. Sem confirmar, era melhor. Pelo menos para ele. Não, ele não era preconceituoso. Só não tinha uma opinião favorável a respeito do assunto.
Hora da ceia. Vinte e sete bocas famintas aguardavam para se deliciar com as carnes cheirosas e enfeitadas dos assados, com os doces cheios de glacê e chocolate, com as rabanadas famosas de Berenice, que, afinal, tinha lá os seus predicados de mulher, pensou Chico. A mesa dos netos, como sempre, preparada na beira da piscina, para que os adultos pudessem ficar mais à vontade em seus pileques e falatórios. E uma reivindicação das duas netas mais velhas de Chico, endossada pelo neto mais velho de Zé Antônio, todos com idade entre os 13 e os 15 anos: que no próximo ano pudessem se sentar com os adultos, ou pelo menos em algum lugar “longe dos pirralhos”. E o aparador enorme, abarrotado de pratos e copos e travessas, esperando para ser tomado de assalto.
— Hora de comer, criançada! Todo o mundo lá para fora que alguém vai servir vocês — Chico avisou.
O Natal era a única reunião de família em que, de comum acordo, não contratavam garçons e copeiras. “É festa particular. Precisa ser uma coisa só nossa.” Com isso, além de servir os maridos, cabia às mulheres cuidar das crianças famintas e agitadas pela data. Menos Berenice, a quem Zé Antônio, os filhos e as noras poupavam com aparente prazer. Chico não precisou falar duas vezes. O pequeno grupo se pôs em debandada, às gargalhadas. Como sempre, seguir-se-iam alguns minutos em que as nove vozes falariam ao mesmo tempo, até que a comida chegasse à mesa, quando então o silêncio seria absoluto. 
Mas não foi assim. Uma frase dita em tom mais alto, uma resposta gritada, silêncio de todas as crianças, um barulho de vidro se quebrando.
Zé Antônio e Chico chegaram juntos à mesa dos netos. De pé, Maria Eduarda e Bruno, os mais velhos, hostilizavam-se. Entre os dois, no chão, um copo quebrado. E da camisa do menino pingava um líquido marrom.
— Mas o que é isso? — Zé Antônio adiantou-se, bravo.
Os dois responderam juntos: “Nada”.
— Como nada? Eu quero saber agora o que houve! — foi a vez de Chico cobrar uma explicação.
Houve o seguinte. Bruno viu a bandeja que Maria Eduarda colocara no centro da mesa das crianças um pouco mais cedo, com os copos emborcados e cobertos por um pano branco. Debochado, disse:
— Coisa de mulherzinha, hein!
— Prefiro ser mulherzinha do que ser maluca igual a você, que arruma o armário separando as camisas brancas das coloridas, e que guarda os cintos enroladinhos numa gaveta!
E as coisas continuaram com a rapidez das línguas afiadas, em um pingue-pongue incessante, até que, num golpe fatal, Bruno falou:
— Mulherzinha, sim, igual à sua avó! Vai ter que pedir dinheiro para o marido até para comprar calcinhas!
Foi quando Maria Eduarda atirou nele um copo cheio de refrigerante. 


5 comentários:

  1. Boa noite!

    Adorei a leitura...um belo texto.
    Parabéns
    Sinval

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  2. Cruzes! Não espirra longe... Que medo!
    hahahahahaha...
    Excelente, Cinthia, mas dá mais medo que os meus! No meu caso, isso soa extremamente assustador.
    Muito bom!
    E não dormirei pensando nisso...

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  3. Belo texto. Porque não continua a história? Os debates da nova geração poderiam ficar bem interessantes... rsrsrs
    Bjs
    Marli
    Blog da Marli

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    1. É um caso a se pensar mesmo. Obrigada, Marli!

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