terça-feira, 1 de julho de 2014

Futebol? Sim, futebol

Falar de futebol. Simples assim. Afinal, nascer no Brasil nos credencia a ser técnicos, jogadores, juízes e torcedores. Como é fácil falar de futebol nesta terra de craques! Principalmente em época de Copa do Mundo. Em cada esquina, um especialista. "Falta ponta na seleção". "Cadê a zaga?". "Eu teria escalado o fulano e o sicrano".
Sim, somos mesmo uma nação que ama o futebol. E amamos tanto que mesmo com a saúde doente, e a carestia, e a educação caindo aos pedaços, e a segurança que falta em cada rua não deixamos de torcer.
"Eu, não!", me avisa com altivez a moça de azul no fundo da sala. "Eu detesto futebol", afirma, com ares de intelectual que não tem tempo a perder com bobagens. 
Quero perguntar a ela em que ponto do caminho ela aprendeu esse desprezo pelas coisas simples. Em que momento ela, que nunca sequer dedicou um olhar, uma atenção a um jogo de futebol, decidiu que detesta futebol. 
Como é possível odiar o que não se conhece? Como é possível ignorar alguma coisa assim tão grande e que agrada a tanta gente no mundo inteiro? 
"Não gosto, não entendo e não quero entender", ela insiste, cheia de moral. E eu percebo em sua voz a nota aguda que tenho conhecido tão bem durante toda a minha vida: o preconceito.
A moça de azul tem medo. Medo de não ser mais séria se gostar de futebol. Medo de se envolver com essa coisa tão “vulgar” e deixar de ser elite. Medo de largar de lado os livros acadêmicos, ou as rodinhas de conversas cultas e ser chamada de... povo.
Coitada da moça de azul. Não pode gastar 90 minutos do seu tempo importante para ver como é divertido o futebol. Não sabe como é bom gritar "vai!", gritar "chuta essa bola!", gritar "goooooool!!!". Não, ela não sabe como é bom ser multidão. Que é mais difícil. E mais gostoso.
Que entender que nada! No futebol vale torcer porque a camisa é bonita, porque é o time do pai da gente, porque é o time da cidade da gente, porque é o time do namorado, do marido, da maioria. Valeaté torcer porque o jogador é gato. Vale sofrer, levantar e sentar mil vezes do sofá, assistir sentado no chão, no telão da praça ou no boteco da esquina. Vale ver o jogo só para passar o tempo, ou para torcer por qualquer time, desde que ele esteja ganhando. 
Vale, até, xingar a mãe imaginária do juiz. Aquela de quem todos somos filhos na hora da raiva alheia. 
Mas eu não tenho mais tempo para explicar à moça de azul que é ela quem perde, quando torce o nariz para o futebol. E que as nossas escolhas definem se seremos plenos, completos, ou marionetes de falsos dogmas, prisioneiros de grupos de patrulha.
Não tenho mesmo mais tempo para gente que não quer, não tenta.Porque agora, bem agora, tem jogo de Copa do Mundo. A Copa que, errada ou certa, está aqui, nos cortejando ao vivo. E que nos trouxe um novo apelo às ruas. Cores, cheiros, hábitos e sotaques das gentes que antes só se via na TV, na Copa dos outros.
É hora de relaxar. Não de se alienar, como pensa a moça de azul que tem medo de ser povo por 90 minutos. Que despreza o que nem conhece. Que pensa que o futebol só serve para distrair a atenção do povo das mazelas e das lutas válidas e necessárias. Distrai não, viu moça. Só alivia. Pode me acreditar que não são coisas excludentes.
É hora de relaxar, repito. De deixar para lá a moça de azul e prestar atenção em outra moça. Nessa atrás da qual correm tantos homens. Desejada, perseguida, defendida. É hora de bola!
Brazuca, sua linda! 
Ah, como eu boto fé nessas mulheres roliças! 


2 comentários:

  1. Anônimo1/7/14 18:41

    Estive lá. Li, com Marco Antunes, um texto do Nelson Rodrigues. O Roberto leu seu texto com a competência de sempre. Mas sentimos sua falta. Liana

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