sábado, 13 de setembro de 2014

Ruptura

Eles recuam. No último instante. Recolhem os gritos, o nojo, a violência das percepções individuais. Estacam. Voltam. E o silêncio parece bastar. O cansaço obriga a uma trégua. Uma trégua curta. Um tempo para desnutrir a tragédia latente. Sem a acidez corrosiva dos humores.
Eles retrocedem, extenuados. Hostilidades suspensas, arena escura. É preciso aliviar a eventração dolorosa do ódio. Permitir que nervos, músculos, fibras se desentesem. É hora de repetir risos programados, gestos comedidos, frases insignificantes, olhares desviados, desencontros planejados. Amenidades recorrentes. Ferramentas de quem se esgueira nos vazios.
Tudo parece renúncia. À fúria que há instantes era vômito de fluxo impiedoso; às palavras cuspidas sem moldagem ou corte; às acusações lançadas ao ar como malabares imprevisíveis. Corpo e corpo se retiram. E a calmaria empresta um jeito de paz ao abismo. 
Eles se espreitam. Os anos não foram capazes de acumpliciá-los. Nem como amantes, nem como amigos, nem como gente. São apenas bestas ferozes. Urinam territórios, afiam as garras, caçam-se um ao outro, enfrentam-se com patadas e mordidas, lambem as cicatrizes para manter ativa a memória da dor. E se espreitam.
Mas haverá a hora da ruptura. Quando o vício mutilante de ferir será descontinuado. Porque a um deles acontecerá de enxergar a feiura deformada das coisas dilaceradas. A esse, que enxergará a tristeza inútil dos cacos colados em remendo, será permitido chorar. E partir.

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