quinta-feira, 23 de outubro de 2014

ossos anônimos


                                "longe vá temor servil..."

um fêmur lateja, dilacerado, sob a terra 
vermelha
entranhado ao pó que o sepulta (e que 
acoberta pecados infames, o húmus 
fértil em [nutri]entes mórbidos 
: ela e eles e elas e tantos 
adubando a memória da dor
do golpe 
nos rins, na cabeça, no pau
de arara respingado de mijos, espermas
plasmas, fluidos arrancados 
sem gozo
no pântano subterrâneo, insepultos 
|em cárcere coletivo|
ossos anônimos não esperam 
anistia, eucaristia profanada pelo algoz
somente uma lápide, uma carpideira honesta, um 
réquiem, um nada eterno 
acima, no abismo disfarçado em superfície
disciplinadas, moderadas
obedientes botas batem o calcanhar 
em continência 
depois esmagam com o tacão pesado
meninos e meninas
nas ruas [úteros maduros 
censura, coação, tortura
e reação 
estudantes, artistas, operários, gente 
alienada, consciente, amedrontada
e os alcaguetes 
entregando Marighellas, Honestinos
zés ruelas
no Calabouço, morre Edson Luís 
— dezoito anos 
com dezessete, uma menina sem 
nome apanha 
do seu primeiro fuzil 
o fêmur, dilacerado
lateja



2 comentários:

  1. Lirismo doloroso, minha querida!!!!!
    E há quem diga sentir saudades e que clame pela volta de tais horrores. Gente sem memória, sem História ou sem vergonha, mesmo!
    Parabéns, pelo texto!!!

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  2. Valeu, Denise! Concordo plenamente!

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