quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Neera






“mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas”

Chico Buarque

anda, Neera, termina, limpa 
logo essa latrina 
que ainda falta a pia entulhada
copo, prato, garfo, xícara 
cuidado com as unhas, Neera
não quebra as garras pintadas 
com flores, laços, estrelas
que Estéfano espera no quarto, que Estéfano 
anseia no lombo uma trilha de arrepios
riscada por tais punhais
limpa o chão, esfrega, encera, mas corre
te apressa, Neera
que ainda te faltam dois ônibus, do Leblon 
a Cascadura, do ganha-pão à prisão
lá tem mais uma latrina, uma cozinha 
encardida, um chão de terra
batida, roupa a lavar na mão 
e tem a fome de Estéfano, que não se
importa com nada, que se consome
em urgências, que bate, puxa
arrebenta, fedendo a cachaça, a tesão
não reclama, não chora a Neera
pórnē julgada de Atenas, mulher de um 
direito a-penas, que deita, rebola
implora, ajoelha, geme 
e adormece
sonhos de Aspásia 

2 comentários:

  1. Oi.Gostei bastante do teu texto,muito bom.Voltarei mais vezes.
    Abraço.

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  2. Gostei!
    Muito bom!
    Aproveito para deixar os meus votos de um próspero 2015 repleto de tudo aquilo que almejas.

    http://diogo-mar.blogspot.com/

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