quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Passos no telhado

Duas da manhã e os grilos gritam mais baixo no ar quente da noite. Cricrilam. Os grilos cricrilam. Onomatopeia. Em que série mesmo me ensinaram isso? Os gatos ronronam. As pombas arrulham. Os leões rugem. Os corvos crocitam. As vacas mugem. As daqui não mugem. Não à noite. Educadas e compreensivas como o galo que só cocorica de dia. Hoje em dia os animais de sítio ouvem música clássica. Nenhum se estressa ou fica acordado de madrugada. Só eu. A besta humana que não prega os olhos faz mais de uma semana. Duas horas e meia, três por noite. É o que tem dado pra dormir. Eu não entendo por quê. Saúde boa, finanças razoavelmente estáveis, nem marido, nem filhos para sugar minha energia. Sequer um amigo doente, um amor destrambelhado, uma unha quebrada, um fio branco a mais nos cabelos, um quilo excedente. Tudo no lugar. Inclusive as onomatopeias e uma viagem para as ilhas gregas marcada para daqui a um mês. Caprichos de mulher romântica que quer ver casinhas de pedra branca e conhecer a morada dos deuses.
Está tudo bem. Menos este excesso de mato ao meu redor. E esta falta de sono. E estes passos leves, bem leves, no telhado. Parecem garras arranhando as telhas. Os meus ouvidos nunca me enganam. Não são os gatos, porque os gatos estão comigo. Leo, Amarelo, Princesa e Donzela. Embolados nas caminhas enfileiradas na parede, matando a saudade de mim, porque faz mais de mês que eu não dou as caras por aqui. Mas os rabos em pé como radares me contam que não sou só eu que escuto os passos no teto. Não sei se acendo a luz. Se for gente, não vai adiantar. Se for bicho, não vai adiantar. 
Será que é gambá? Pode ser macaco. Ou então é... onça. Cruzes! Tem onça por aqui de vez em quando, tocaiando o gato. E onça sobe em árvore. Sem fazer barulho nenhum. Pisando como se fosse gato. E se sobe em árvore, sobe em telhado. Não teve uma no interior de São Paulo que fez isso? Deu o maior trabalho e era apenas filhote. Filhote de quantos quilos mesmo? Deixa eu olhar aqui na internet. Vinte e cinco quilos! Será que o meu telhado de amianto aguenta? E quem vai tirar ela de lá? Ainda faltam umas três horas para amanhecer. Neste fim de mundo não tem bombeiro, não tem polícia que chegue logo. Seu Zé Romualdo acorda às quatro para ir para a roça, mas como é que eu faço para ele vir aqui em casa logo cedo? Ele vai pensar que eu estou dormindo e vai direto para a lavoura com os homens. 
Melhor ficar quieta que a onça vai embora. Nossa! Lá em São Paulo as telhas começaram a ceder com o peso dela e quase que ela caía dentro da casa. E se cair aqui? Aqui nem é telha de cerâmica nem nada! O que é que eu faço? Será que ela me ataca? Onças são caçadoras noturnas. Está dizendo aqui, no site. E são tímidas. Será? Vai que ela resolva perder a timidez logo comigo. E os gatos? Coitadinhos! Melhor deixar a porta do quarto aberta para eles poderem pelo menos tentar fugir. Eu não sei como é que eles continuam dormindo. Deve ser porque felinos não se estranham, se estranham? Sei lá! Não entendo nada de onças. Gatos traidores! Só com esses rabos aí abanando, dando as boas-vindas ao parente visitante. E eu aqui, querendo gritar. Eu vou gritar. Ninguém vai me ouvir mesmo. Eu e esta mania de ficar sozinha. Que droga!
A arma que era do papai está no outro quarto. Será que ainda está carregada? Será que eu dou conta de atirar? Será que eu tenho coragem de atirar? Um bicho tão lindo, tão majestoso. Que dó! Deve estar com mais medo de mim do que eu dela. E com fome. Sim, com fome. De carne, claro. Qualquer carne. Eu vou atirar. Juro que vou! Depois passo o resto da vida me arrependendo, mas, entre mim e ela, sinto muito, eu me escolho.
Merda! Cadê a arma do papai? Ah, não! Alguém tirou daqui. Não tem arma, o sinal de celular acabou de sumir e não tem ninguém além de mim na casa. Merda, merda! E agora os gatos se levantaram. O Amarelo subiu no parapeito da janela. Ouviu os passos, seu gato preguiçoso? Acordando meio tarde para o perigo, não? Ainda bem que as janelas estão fechadas. Bem fechadas. Mas o que é uma janelinha de nada para uma onça de uns 40 quilos que sobe sorrateiramente no telhado e pisa como se tivesse almofada nas patas? Ave Maria, cheia de gr... Aiii! Tem mais de uma! Eu ouvi, eu ouvi! Umas duas... Não! Acho que são três! A família inteira subiu no telhado! O teto vai desabar a qualquer momento sob o peso dessas onças de 60 quilos! E elas vão me esquartejar. Vão disputar meus pedaços como se eu fosse um frango. Coxa, sobrecoxa, peito, miúdos. Por quê, Senhor? Por que essa morte horrorosa? 
Essa Donzela é mesmo uma gracinha! Veio para o meu colo só porque sentiu que eu estou apavorada. Obrigada, lindinha. Mas você não pode nos salvar dessa família de onças que subiu no... O que é isso? Parece a voz do seu Zé Romualdo falando com o Chico. Eles viram as onças e vieram me salvar! Obrigada, meu Deus, obrigada! A gente está salva, Donzela! No último minuto! Mas que barulheira é essa? Está escutando, Donzela? Tô fraco, tô fraco, tô fraco. Por que é que eles trouxeram essas galinhas pra cá? Será que estão usando as coitadinhas para atrair as onças? Que destino tris... Estão batendo na porta. Com certeza é seu Zé Romualdo pra me avisar que eles espantaram as onças. Deixa eu abrir e oferecer um café para ele. Que bom que esse inferno acabou!
— Noite, D. Angela. Eu só vim avisar que...
— Espantaram as onças, né, seu Zé? Que maravilha! 
— Onça? Que onça, D. Angela? Eu só vim avisar que o Chico aqui mais eu já acabamos de recolher as angolas que tinham fugido do galinheiro. Tava tudo no seu telhado, andando pra lá e pra cá. Deu um trabalhão subir até lá! Mas, onça... Onça mesmo que é bom nós não viu não, né, Chico?


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