domingo, 5 de julho de 2015

Cul-de-sac


Dói. O amor que nunca chega, nunca basta, nunca fica. Dói. O pé inchado pelas pedras ásperas de cada busca estéril. E a cabeça cheia da aguardente de substituir afetos. E o sexo sem reflexo, urgente, mínimo. Dói. A madrugada dividida com outras esfinges; a insônia cortejada pela solidão. Dói. A boca sem sabor de outras; o corpo deslembrado de roçares, de mordidas, de sugadas. Dói. O rosto morto e insepulto confiscado pelo espelho canalha que mora no quarto de dormir. O riso congelado por adestramento. Dói a navalha cega do banheiro; dói o comprimido que faz o choro dormir; dói o silêncio no fundo do copo; dói a cova sem valia que é o peito. Dói ser. E isso é o que mais impressiona. Porque o não ser também dói.

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