quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Vigília

A velha sentada na varanda suspensa de madeira não mexe mais os olhos para ver o que acontece no chão, cinco metros abaixo. Ela não respira. Para não sentir o cheiro da podridão que vai além das fezes dos animais e do mijo dos bêbados e da porra dos homens que trepam com as prostitutas no beco e das línguas que envenenam histórias  nos  ouvidos  fracos  e  do  tabaco  vagabundo dos  operários.  Ela  não  está morta. Mas é como se estivesse. E talvez esteja. Não da morte que deita no caixão e põe nas narinas algodões para aparar os fluidos fétidos do corpo. Ela  morreu de inexistência. Do dia após dia em que ganhar nunca foi opção. Ela perdeu. Tudo. Os dentes da boca infectada; os cabelos brancos fracos e finos que os anos trouxeram antes ainda da velhice; o tesão que aliviou tantas noites cansadas de dias de trabalho  insano; os filhos que não vingaram na barriga por causa da fome e das doenças; o companheiro que foi embora deixando uma cria doente para ela alimentar e quatro tíquetes de refeição que recebeu em pagamento por um serviço de pedreiro. Além da cria que virou anjinho, ainda ficou para trás uma solidão que também tinha fome. A única que ela conseguiu nutrir até que os farelos se acabaram.  
Inerte  na  varanda. É  assim  que  ela  vive.  Na  cabeça,  um  pano  encardido  para esconder a calvície. E um vestido preto que não é de luto, mas da sobra dos sacos de caridade da igreja. Um dos olhos já quase não se abre; e o outro não se importa. Ela não sente nada. Nem alívio. Ao lado, um prato de comida que alguém traz quando pode. Vazio. E uma caneca de água pela metade. Ela sempre come tudo. E bebe aos goles. Deixa que mãos estranhas a banhem numa bacia de água fria, a vistam com o mesmo vestido preto, envolvam a sua cabeça no mesmo pano encardido, e a levem de  volta  à  cadeira  na  varanda.  Ela  come  e  bebe  porque  quer ficar  forte  para continuar a vigília. E se esquecer de tudo o que fede e grita cinco metros abaixo. Quer se aprumar para caminhar com a morte quando ela chegar. Na direção do céu que só existe bem longe. Lá, ela vai rever a cria, o pai funileiro, a mãe costureira. Gente  que  a  saudade  desassossegada  nunca  deixou  partir  do  pensamento.  E  vai ganhar vestido novo. Todo branco. E uma tiara brilhante para prender os cabelos pretos, longos, cheios. Essas coisas que só Deus dá. No céu.

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