sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Mão dupla

Os meus amigos mais próximos sabem que sou contra o aborto. Para mim. Para a minha vida. Mas também sabem que entendo decisões contrárias.
Fui criada na religião católica, mesmo que hoje não pratique. Adão e Eva deixaram de compor o meu imaginário há muitos anos. Caso contrário eu teria que prosseguir carregando nas costas a certeza de que o mundo se desenvolveu a partir de um incesto. E a ideia me desgosta profundamente. E também tem tempo que deixei de agir como gado diante de muitas situações das quais discordo. Eu me recuso a isso (mesmo sabendo que há um preço a pagar). Mas há coisas nas quais acredito. Não por força da religião, mas por uma questão de crença. 
Acredito, por exemplo, que a vida existe desde o momento em que o espermatozoide fecunda o óvulo. E, aqui, caberia até um breve questionamento aos que acreditam em alma: em que momento vocês acham que essa alma passa a existir em um corpo? — alma ou qualquer outro nome que deem a essa força motriz que nos impulsiona a sentimentos e decisões e vontades. Mas esse questionamento passa longe de ser breve. E esse não é, no momento, o meu foco. Porque isso é apenas no que eu acredito.
Enfim, antes de prosseguir quero dizer o óbvio. Crença é crença. Ponto. Não crença é não crença. Ponto. Certo? Errado? Certo para quem? Errado para quem? Não importa. Eu não vou convencer você a crer. Você não vai me convencer a descrer. Porque o que nos separa não é uma opinião, mas um conceito.
Dito isso, e exatamente por causa disso, eu pergunto: quem me deu o direito de decidir pelo outro? Já é muito ter que decidir sobre mim. Faço isso há anos e confesso que estou exausta. E se não admito que decidam por mim, como posso burlar a minha própria regra e querer mandar na vida alheia? 
A opção pelo aborto é um dos atos mais individuais que existem. Meu sexo, meu corpo, meu embrião, meu momento, minha crença ou minha descrença, minha vontade, minha consciência, meu pecado (se eu creio em pecado), meu não pecado (se eu não acredito nisso). Tudo meu. Não da Igreja. Não do Estado. Não da sociedade. Não do companheiro que, embora bem-vindo a conversar sobre esse fato gerado a dois, não terá a última palavra. Isso quando há um companheiro por perto.
Indo além da questão da crença religiosa, tenho ainda algumas preocupações relativas ao aborto. Uma  delas surgiu quando li as estatísticas. 
Se temos no Brasil mais de um milhão de abortos ao ano, isso não seria o mesmo que dizer que temos dois milhões de inconsequentes ao ano? Explico. Para transar são precisos dois. Um milhão mais um milhão. E por que inconsequentes? Porque isso significa que dois milhões de indivíduos transaram sem camisinha, expondo-se (bem antes da possibilidade de uma gravidez) às Doenças Sexualmente Transmissíveis, entre elas a famigerada AIDS, que segue matando — em especial entre os mais jovens. Não dá para ignorar dois milhões de levianos. Descontados daí os estupros horrendos, caso em que "levianos" ou “inconsequentes” jamais seria o termo, eu pergunto: alguém acha que transar sem camisinha neste mundo de sexo liberado e múltiplos parceiros é uma coisa sem importância? 
A outra preocupação também se refere a isso, às estatísticas. Só que diz respeito à outra ponta da questão. Uma vez grávidas — e isso implica dizer que já não adianta falar de camisinhas e doenças —, como ignorar que um milhão de mulheres estejam correndo risco de vida em clínicas clandestinas ou tentando procedimentos abortivos caseiros de péssima qualidade? Somos tão maus que dizemos “bem feito!” para essa tragédia social? 
Aborto é sim questão de Saúde Pública. Não como querem impor muitas mulheres, por meio do ódio contra quem discorda delas — ironicamente, essa constatação serve para os dois lados, o pró e o contra. É uma questão que precisa envolver o pensamento responsável sobre o uso de preservativos e sobre o sexo seguro. Uma questão que precisa envolver o pensamento de que a pílula do dia seguinte não é balinha, facilmente consumida por quem quer brincar de sexo de risco. Uma questão que precisa envolver informação detalhada, não romantizada, mas igualmente não preconceituosa sobre o que é o aborto para o corpo da mulher. E uma questão  que exija que o Estado não pertença apenas aos que creem, nem aos que pregam moralismos, nem aos que querem mandar na vida alheia. O Estado é para todos. 
Não dá para deixar desassistidas essas mulheres, jovens ou adultas, que precisam de ajuda. Desassistidas como as quer deixar o Congresso Nacional, querendo retroceder das leis que permitem, mesmo que em poucos casos, o aborto. Igrejas não mandam no Estado. A indústria de medicamentos não manda no Estado. O Estado está aí para, entre outras coisas, garantir o bem-estar e os direitos dos cidadãos. De todos os cidadãos. Os que pagamos impostos e os que não pagamos. Os que entendem seus direitos e os mais simples, que os ignoram.
O aborto é um direito de quem o defende. E nós já vimos o que acontece ao mundo quando direitos individuais são negados ou ignorados. O nazismo nasceu da visão unicista de um louco que dizia que "só a raça ariana é boa". Os refugiados muçulmanos enfrentam resistência no mundo todo porque as pessoas legitimamente apavoradas confundem islamismo com a carnificina psicopata promovida pelo assassino Estado Islâmico, o EL. Os homossexuais, os negros, os deficientes, os gordos, as mulheres, os pobres são perseguidos, desprezados, mortos. Por causa da intolerância. E da ignorância
Aprovar o aborto muda o quê? Para as mulheres que não o fariam, nada. Para as mulheres que querem fazê-lo, muito. Para as mulheres que continuarão a se esconder, mesmo na legalidade, com medo de pais, família e sociedade, nada. Para as mulheres que se sentirão protegidas e amparadas por bons profissionais médicos, muito. 
Decisões e consequências são individuais. Ou, como diz o ditado, cada cabeça uma sentença. Mas o respeito é coletivo. E tem mão dupla.




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