sábado, 28 de maio de 2016

Aos que culpam as vítimas

Um estuprador não olha para o corpo de uma mulher porque ele é magro ou gordo, branco ou negro, novo ou velho. Um estuprador olha para o corpo de uma mulher como objeto de dominação não consentida. 
Um estuprador enxerga a si mesmo como alguém que pode praticar o que quiser, quando e como quiser, e ficar impune. Um estuprador é um predador. Um estuprador não sabe o que significa afeto, respeito, convivência, nenhum desses valores, sentimentos e atitudes que as pessoas têm ou desenvolvem. Ele, não. Tudo o que ele quer é tomar pela força. Tudo o que ele sente é um desejo  permanente de invadir, de destruir, de controlar, de ser o dono, de ser obedecido, de obrigar uma mulher à sua vontade. Vontade de sexo, de se sentir importante, de gerar medo, de humilhar, de deixar uma mulher impotente.
Um estuprador é alguém que busca permanentemente o poder do controle pela opressão. Que olha para uma mulher e só enxerga uma vagina e um ânus. E que decide que essa vagina e esse ânus terão o destino que ele quiser. 
Portanto, homens e mulheres que não parecem saber do que se trata um estupro, parem de repetir: não 
que era uma vagabunda e mereceu o que ganhou;
que uma mulher que usa decote, vestido curto ou transparência merece ser estuprada;
que uma mulher que faz sexo livremente, e com quantos parceiros ela quiser, merece ser estuprada;
que uma mulher que bebe e dança funk merece ser estuprada;
que uma mulher que não se dá ao respeito (seja lá o que for que essa frase represente para você...) merece ser estuprada;
que uma mulher que namora homens casados merece ser estuprada;
que uma mulher homossexual merece ser estuprada;
que uma mulher feia, gorda, velha merece ser estuprada;
que uma mulher sedutora merece ser estuprada.
Não. Não merecem. Não querem. Uma mulher não pode ser estuprada porque ela sorri para os homens, porque ela é sensual, porque você não vai com a cara dela, porque ela dormiu com o seu marido, porque ela traiu o namorado, porque ela usa roupas que você não usaria, porque ela não frequenta a igreja que você frequenta.  
Não existe "mas..." num estupro. Porque não há motivo ou justificativa para esse ato covarde e monstruoso. 
Parem de jogar sobre "essas mulheres que..." as suas cargas de ódio, de moralismo, de frustrações pessoais, de dogmas inflexíveis, de complexos, de uma piedade hipócrita que só aparece para as "moças e mulheres de família". 
Ser estuprada não tem nada a ver com ser santa, não transar, não beber, não se drogar, não ser homossexual. Porque nada disso importa para um estuprador. Porque o estupro não é sobre ter ou não religião, sobre ser assanhada ou quieta, sobre tomar porres ou não, sobre se drogar ou não, sobre ter essa ou aquela orientação sexual, sobre ser uma moça que vai a bailes funks ou uma moça que vive rezando. Muito menos sobre ter sido “bem educada” por uma “família estruturada”. 
Leiam as estatísticas. Consultem as ocorrências policiais, os dados oficiais. Mulheres de 80 anos são estupradas, bebês de um mês e meio são estupradas, meninas de sete anos são estupradas por parentes dentro de casa. Meninas esperando por um ônibus no ponto são estupradas. Esposas são estupradas. Freiras são estupradas. Moças dentro de táxis são estupradas. Estudantes são estupradas na faculdade. Mulheres em coma nos hospitais são estupradas. Bebês, meninas, mulheres e idosas de todas, de todas as  camadas sociais e econômicas.
Não, não são vocês ou a sua rigidez de caráter (para falar educadamente) que decidem quem “merece” ou não ser estuprada. Nem a sua religião equivocada, nem a sua compreensão equivocada sobre a sua religião, nem o seu preconceito. É ele, o estuprador, em primeira e última instância, o único culpado. 
Não são “merecedoras” a menina, a bebê,  a idosa, a mulher em coma, a prostituta, a mulher mais jovem com quem o seu marido traiu você, as mulheres de quem você não gosta por este ou aquele motivo que só diz respeito a você, as ricas, as pobres, a menina que dança funk de vestido curto e bebe e fuma maconha. Elas não são culpadas. Elas são VÍTIMAS. 

Porque quando uma mulher diz NÃO, é NÃO! 

Qualquer mulher. Todas elas. 





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